Cinema: Doutor Sono

Nada acaba nunca no entretenimento, isso é fato. Vivemos uma época onde nada exatamente novo surge: tudo é reciclado, revivido e nada termina. Para toda história há uma continuação possível, engatilhada para ser produzida tão logo os fãs peçam.

Isso não quer dizer que essa é uma fórmula infalível. Mexer com personagens amados, reviver histórias que estão cravadas de maneira imutável na memória do público, trazer um novo capítulo para um fim anteriormente consolidado. É preciso assumir um risco calculado.

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Apostando todas as suas fichas e jurando que é bom de contas, chega aos cinemas essa semana Doutor Sono. Continuando a história de Danny Torrance, 40 anos após sua assustadora estadia no Hotel Overlook, no icônico O Iluminado de Kubrick, o filme tem a presença luxuosa de Ewan McGregor no papel título, em uma direção de Mike Flanagan, que escreveu o roteiro com base no romance de Stephen King.

Nessa nova história, extremamente marcado pelo trauma que sofreu quando criança no Hotel Overlook, o maduro Dan Torrance luta para encontrar o mínimo de paz. Essa paz é destruída quando ele encontra Abra, uma adolescente com um dom extrassensorial conhecido como Brilho. Ao reconhecer instintivamente que Dan compartilha seu poder, Abra o procura para que ele a ajude contra a impiedosa Rose Cartola e seus seguidores do grupo Verdadeiro Nó, que se alimentam do Brilho de inocentes visando a imortalidade.

Parece confuso? É um pouco mesmo. Em suas duas horas e meia(!) de história, o filme joga com todos os elementos possíveis para causar algo, o que quer que seja, no telespectador. O apelo emocional, os conflitos do homem adulto moderno, o horror, as assombrações terrivelmente gráficas, tudo está ali, como em uma boa trama de Stephen King. No entanto, mesmo rezando a cartilha do escritor, o que assusta e mais chama atenção no filme nem são os fantasmas, mas sim a ousada escolha de recriar cenas e personagens do longa original no intento de colar as pontas de todos os elementos que são jogados sem muita explicação para cima do telespectador.

Assim, são inúmeros flashbacks, recriando cenas do filme anterior, com novos atores personificando aqueles personagens clássicos do filme de 1980. O trabalho que isso deve ter dado é digno de nota, o que infelizmente não quer dizer que o saldo residual tenha sido positivo. Por que parece que não foi: de tudo o que vemos em Doutor Sono fica um gosto agridoce que nos faz questionar: Eles podiam ter feito isso? Precisavam? 

É de se destacar, entretanto, a atuação gigantesca de Rebecca Ferguson como a vilã Rose Cartola. É Rebecca quem leva o filme nas costas, a despeito do calibre de Ewan McGregor, que aqui aparece apático, como que distraído o filme todo, como se não estivesse ali de fato. Nas mãos de Fergunson, temos os raros momentos de conexão com a trama, o que a salva por pouco do despropósito total.

Fosse uma história isolada, valeria por Rose Cartola. Como continuação de um filme clássico e perfeito, fica só a sensação de que não precisava. Não dessa maneira, não sendo tão audacioso e sem base para ser. Foi um risco calculado, mas – como diz o meme – meu Deus, como eles são ruim em matemática.

DOUTOR SONO
EUA | 2019 | 151 minutos | Horror
Título original: Doctor Sleep
Direção: Mike Flanagan
Elenco: Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kyliegh Curran, Carl Lumbly, Zahn McClarnon, Emily Alyn Lind, Bruce Greenwood, Jocelin Donahue e Cliff Curtis.
Roteiro:  Mike Flanagan
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Produção: Intrepid Pictures/Vertigo Entertainment

Com lançamento previsto no Brasil para 07 de novembro, Doutor Sono será distribuído mundialmente pela Warner Bros. Pictures.

Escrito por Tati Lopatiuk

Tati Lopatiuk é redatora e escritora em São Paulo. Gosta de romances em seriados, filmes, livros e na vida. Suas séries favoritas são Gossip Girl e Breaking Bad. Pois é.

Seus livros estão na Amazon e seus textos estão no Medium.

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