Mulheres: Diane Prince, Ruth Ginsburg e Carol Danvers

*não é uma crítica de cinema, mas fala das personagens em questão e pode ter spoilers leves (nada que atrapalhe a viagem)

Na mesma semana acabei assistindo a Mulher Maravilha (again), Suprema e Capitão Marvel. Juro que não foi proposital, ainda que eu atualmente tenha buscado ler mais livros escritos por mulheres, filmes e series dirigidos e escritos por mulheres ou que tenham personagens femininas fortes. Foi dessas coincidências interessantes, ainda mais considerando o Dia da Mulher na última sexta.

Mulher Maravilha é um daqueles filmes em que paro sempre que estou pulando de canal para canal e ele estiver passando. Suprema, que chega aos cinemas na próxima quinta, 14 de março, foi esperadamente bom (falo com mais calma sobre ele ainda nesta semana): um docudrama charmoso sobre uma mulher indiscutivelmente forte. Capitã Marvel foi a melhor surpresa do universo Marvel para mim, de seu letreiro inicial, com a simples, mas significante homenagem a Stan Lee, a frase com que a protagonista encerra sua última luta no filme – “eu não preciso provar nada para você”.

Os três filmes tem mais coisas em comum além de uma protagonista “heroína”: são dirigidos por mulheres (ainda que em Capitã Marvel exista um co-diretor) e foram bombardeados por notas baixas nos sites de filmes como IMDB, mesmo antes de sua estreia nos grandes circuitos – uma clara demonstração do quanto filmes protagonizados por mulheres são capazes de incomodar.

Mas o que me fez vir até aqui escrever este texto foi o fato de eu ficar pensando durante um bom tempo sobre as diferenças e semelhanças na “vida” destas mulheres que, segundo a opinião geral, “deveriam sorrir mais”.

Diane Prince cresceu longe de uma cultura machista em que a mulher deve ter um papel secundário, deve ser doce, deve ser cordata e simpática. Quando ela resolve deixar sua ilha e encarar o mundo ela faz rir boa parte do público justamente por conta de sua inadequação, do fato dela não ter problema algum em mostrar seu corpo no meio de uma loja, interromper homens falando em uma reunião porque tem uma opinião a dar ou quando surpreende algum dos personagens com seus comentários ou suas habilidades.

Não consigo pensar em uma forma mais didática de demonstrar o quanto garotas do mundo todo se sentem menos merecedoras de espaço do que a forma como Diane é olhada neste novo mundo em que ela chega e a nossa reação a ela quando ela simplesmente está fazendo o que todas nós deveríamos fazer o tempo todo.

Ruth Grinsberg, ao contrário de Diane, cresceu em um mundo, este bem real, em que ela repetidamente escuta sobre o que ela não deve fazer e como ela deve ser grata por conseguir algo. Algo como entrar em Harvard, uma das faculdades mais disputadas, tendo se esforçado muito para isso e realizando uma série de sacrifícios pessoais, e ser uma das únicas nove mulheres a cursarem direito naquele ano, e ser recebida pelo reitor em um jantar onde as garotas são obrigadas a responder porque acham que merecem estar lá ao invés de nove rapazes.

Ainda que Suprema seja centrado nas conquistas dessa que foi a primeira mulher a chegar ao Supremo Tribunal nos EUA, não são poucos os exemplos do que ela teve de enfrentar em seu caminho: ser ignorada por professores e colegas; ser intimidada por professores ao saber a resposta que seus colegas homens não sabiam; ser questionada sobre o que seu marido pensaria de determinada situação, ser instigada a sorrir mais e a controlar suas emoções.

Os problemas da sociedade com os sorrisos e emoções femininas em verdade parecem ser enormes, preocupantes mesmo. Não a toa a primeira vez em que se falou de uma doença ligada a excessiva emotividade e terror deu-se a ela o nome de histeria e concluíram que seria originada no útero.

As críticas iniciais ao primeiro filme da Marvel protagonizado por uma mulher falavam que a heroína precisava o que? Sim, sorrir mais. Esta crítica, na verdade, começou com o lançamento do primeiro poster, o que inclusive gerou um ótimo meme em que os heróis dos filmes lançados até aqui foram colocados sorrindo nos cartazes de seus filmes e, como era de se esperar, ficaram ridículos.

Ao observar com mais cuidado o universo dos filmes de super-heróis vemos que as vilãs quase sempre são sedutoras demais, com emoções a flor da pele e pouco sorriem. Se tivermos o mesmo cuidado ao observar as críticas mais pesadas a Capitão Marvel, veremos que foram escritas por homens (inclusive um desenhista da DC que podia ter se poupado da vergonha).

Em Capitã Marvel, por meio dos flashbacks da infância da personagem e por conta de seu treinamento de luta, o discurso de que ela deve controlar suas emoções para ser melhor ou de que ela nunca será boa o bastante repete-se incessantemente e ele não é estranho a nenhuma mulher adulta.

Se Diane Prince mantém sua identidade de força por ter se mantido longe de tudo isso, Carol Danvers se levanta de cada queda a despeito do que lhe dizem e se torna uma mulher que aprende a lidar com tudo isso de forma mais sarcástica do que “o esperado de uma mulher”. Ela passa tempo demais tentando provar o quanto é boa e merecedora, até finalmente entender que o julgamento dos outros tem muito pouco a ver com ela, mas com a insegurança dos juízes.

Assisti a Capitã Marvel ao lado de minha filha adolescente. Que adorou o filme, se empolgou tremendamente e se sentiu elogiada por dividir o nome com uma heroína tão humana e tão forte. Se eu olho para as lutas e desafios de Ruth e Danvers pensando nas minhas próprias lutas e passado, Carol olha para a Capitã como inspiração para vencer seus próprios desafios futuros e, espero, para lembrar que ela não precisa sorrir mais ou controlar suas emoções.

E Diane? Bem, ela é necessária para nos lembrar, as duas, que longe do discurso machista a vida é bem mais fácil, se não podemos, como ela, crescer sem ele, devemos nos lembrar que ele não nos define e lutar para que ele desapareça.

Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

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