Opinião: The Newsroom

Aaron Sorkin, Você conhece esse nome? Os fãs de série tem de conhecer porque precisam ter no currículo West Wing, uma das melhores séries já feitas. Porque The West Wing tinha diálogos rápidos e certeiros e nenhum medo de desafiar o que consideravam “certinho” na televisão.

Tá, West Wing não é do seu tempo, eu entendo. Mas aí você viu Studio 60 On The Sunset Street, a melhor série já feita cancelada precocemente em sua primeira temporada e que, ainda assim, entregou um dos mais poéticos encerramentos ao fazer com que Danny Tripp – personagem de Bradley Whitford – apague a luz do teatro que nunca deveria ser apagada, deixando um vazio no meu coração até hoje não preenchido.

Se você me disser que nem é tão fã de séries assim eu te falaria pra lembrar do recente “oscarizado” Rede Social ou  do charmoso Meu Querido Presidente.

A questão é que nada que Sorkin faz pode ser desprezado e como todo mundo sabe disso fica ansioso pacas antes da estreia e está pronto para dizer que, bem, nem é tão genial assim. Não esperem isso aqui, afinal, como devem ter percebido, eu sou uma fã.

Até o momento eu já vi quatro episódios de The Newsroom, o novo filho dele, e eu até sabia que ia estrear logo por aqui, mas não dava pra esperar porque eu tinha saudades imensas daqueles diálogos. E até aqui eu não me decepcionei nadinha.

Sorkin homenageia os grandes nomes do noticiário americano – acho que o mais perto que estivemos disso foi com Paulo Francis e num passado quase esquecido pelo que veio depois com Boris Casoy – em que a notícia era dada com precisão, estudo e opinião. Dizem que isso se perdeu, dizem que as pessoas não querem aprender na televisão sobre política.

Bom, acho que Sorkin acredita que elas querem ou, pelo menos, que elas devem, já que política sempre esteve ao fundo de tudo que ele fez, mesmo que a gente não tenha percebido, e aqui ele cria um alter-ego (uia, acho que eu nunca tinha usado essa expressão antes) em Will McAvoy (excelente Jeff Daniels), âncora de um jornal que caiu na mesmice dos outros e que tem o bolso cheio de grana, mas que já foi muito mais que isso.

Ou seria seu alter-ego (again) Charlie Skinner (meu amado Sam Waterston)? Ele, o diretor já quase em fim de carreira que resolve agitar as coisas em sua estação de televisão, talvez naquela busca de fazer algo de significado real em sua vida.

Temos ainda Mackezie MacHale (Emily Mortimer), a produtora obstinada que tem sotaque britânico mesmo sendo americana e que um dia partiu o coração e/ou teve o coração partido por Will. Ela manda nele por 50 minutos toda noite, mas fora disso nenhum dos dois sabe exatamente o que fazer com o que sentiam… Ou sentem.

Existem muitas citações de Don Quixote – tá, até eu achei Mackenzie declamando parte do livro um porre – porque, no fundo, ideias podem ser como moinhos de evento, impávidos, grandiosos, pesados.

Os diálogos rápidos e enormes estão lá, os quase monólogos também. Os personagens de apoio cuja importância você vai decifrar aos poucos, tentando entender o que realmente representam no jogo. A edição está mais rápida e em alguns momentos me incomoda um pouco – não sei se sou eu que estou velha ou se elas não são tão boas quando aliadas aos tais monólogos de que falei.

E sim, em alguns momentos os personagens podem lhe parecer um tanto presunçosos, donos da verdade. Só que no minuto seguinte eu fico pensando se assim não são a maior parte das pessoas que influenciam o público – seja ele os telespectadores de um programa, os alunos de uma sala, os colegas de trabalho.

E assim o são os que defendem brutalmente o que acreditam quando o assunto é política. Ahhh, e eu amo quando esses americanos defendem seus pontos de vista em política, mesmo quando não concordo com eles, porque eu sinto tanta falta disso por aqui – nosso palco político me lembra mais torcida organizada de clube.

Uma quase certeza é de que quem esperava algo mais a lá Sports Night (outra grande série de Sorkin), pode se decepcionar: não estamos na Casa Branca, mas aqui também se faz política.

Eu não sei você, mas o que me importa mesmo é a sensação maravilhosa de que valeu a pena que eu sinto quando cada episódio termina. De que aprendi um tanto, me diverti outro e tive a oportunidade de confirmar que sim, existe vida inteligente na televisão.

E porque me faz pensar muito na afirmação “Você só é popular porque não incomoda ninguém” e no quanto estamos dispostos a arriscar incomodando.

P.S. O não declarado em cena por Sorkin é sempre delicioso. Por isso é tão bom rever o que ele faz, você encontra algo que ele também queria te dizer.

P.S. do P.S. Se sou incapaz de esquecer a cena final de Studio 60 também serei eternamente grata pela inicial de The Newsroom quando Will simplesmente destrói aquela pobre menina com sua resposta.

P.S. do P.S. do P.S. Jim tem meu coração, de verdade.

Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

5 Comentários


  1. Eu só assisti ontem o primeiro episódio, mas tenho mais 2 no computador me esperando e qdonterminei minha vontade era ir assistir tudo e baixar o resto… Muito bom, episódio piloto de deixar de boca aberta, amei!

    Responder

  2. Ah Simone, tentei ver, de verdade… Mas achei muito chatésima a série. Vi o piloto e dei nova chance para o segundo episódio. Mas achei os personagens chatos demais, com diálogos vazios, gente histérica… Aquela produtorazinha é BORING demais! Enfim, acho que não tenho saco para séries ambientadas em redações jornalísticas… apesar de ter gostado muito da britânica “The Hour”. Deve ser a exceção que confirma a regra. Estou adorando, por outro lado, Political Animals.

    Responder

    1. Oi Fabi, ei gosto muito de Sorkin e estou acostumada com esses diálogos enormes. O tom histérico diminui ao longo dos episódios, mas eu achei justificado no começo, com toda essa coisa de trocar de equipe, trocar a forma de fazer, o risco que isso envolvia.

      Responder

      1. É, não faz o meu estilo mesmo! Já acompanho tanta coisa, vou deixar essa para lá!:-)

        Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *