O prazer nas pequenas coisas

Como trabalhei muito tempo como auditora, pulando de lá para cá em clientes, com equipes sempre diferentes ou, algumas vezes, sozinha, me acostumei a almoçar sozinha. No começo achava estranho, depois comecei a gostar da idéia de um tempo no meio do dia só para mim. Aproveitava para ler um livro, ouvir uma música e, depois do iPhone, até para assistir a algum seriado.

Algumas vezes não fazia nada, apenas olhava o movimento, as pessoas, as manias.

Quando comecei a trabalhar em lugar fixo o número de almoços solitários diminuiu muito. Sempre tem alguém te chamando para almoçar e, se você não vai, o pessoal te chama de chata, te acha antissocial e você acaba aceitando. De vez em quando você dá desculpa de um trabalho enrolado, só para não ir na hora em que todos vão e poder ir depois sozinho – o duro é que o pessoal fica com pena de você.

Hoje aproveitei que cada um foi para um canto e me dei meu almoço sozinha – podia optar por acompanhar alguém para algum lado, mas preferi aproveitar a oportunidade. Como estou lendo Julie e Julia (assista o filme, leia o livro), mesmo tendo ido almoçar depois das duas da tarde, achei que merecia mais que um lanche ou uma salada, o que normalmente como nesses almoços tardios, e escolho o Il Pastaio, restaurante pequenininho e aconchegante aqui da vizinhança, para ir.

Sentei quando as demais mesas estavam cheias de pessoas já tomando seu café. Escolhi um raviolini de muçarela de búfala com molho de tomates frescos, abri meu livro e esperei. Depois saboreei cada garfada, curtindo essa coisa desenhada no céu de juntar massa, queijo e tomate. Depois disso fui presentada com a sobremesa do dia, não cobrada: um belo sfoglietelle. Ainda arrematei com um expresso bem tirado (como mostra a foto aí de cima).

Enquanto lia sobre um bife na manteiga e consumia essas coisas todas que devem fazer o povo apaixonado por regime  querer morrer, pensava no prazer dessas pequenas coisas. Eu ali, sozinha, desfrutava da minha agradável companhia e de uma deliciosa refeição.

Não teve como não pensar no texto escrito pela Gabi sobre uma moça que desfilou na última SP Fashion Week.  Assim como a Gabi eu não sou magra. Mas, sem sombra de dúvida, sou muito mais feliz do que a moça.

Não vou falar aqui sobre o fato das moças estarem magra demais e não sei o quê – um monte de gente escreveu sobre isso durante as últimas duas semanas, a maior parte não vai lembrar mais do assunto até que uma outra modelo morra ou alguém reclame que tem de ajustar roupas para o desfile por elas estarem magras demais – o que eu queria falar era do prazer de viver.

Alguém é realmente feliz de só comer o que não engorda? Ou comer contando quantas calorias o raio do prato tem e quantos quilos isso significa a mais?

Dizem por aí que um monte de coisa faz mal. Nossos avós comiam de tudo, com parcimônia, e não tinham colesterol alto, diabetes e não sei o que mais. Se tem algo de errado na maneira como vivemos a vida não é em relação ao que comemos, mas como comemos.

Se comemos para acabar com a ansiedade, se comemos nervosos sem olhar o que estamos comendo, se comemos infelizes, tudo o que comermos nos fará mal.

Agora, comer algo gostoso, em quantidade razoável, aproveitando aquele momento, aproveitando a companhia ou a solidão (a boa solidão), não vai fazer mal a ninguém e vai tornar sua vida muito, mas muito mais feliz.

Não precisa ser rico, não precisa ser magro, precisa-se apenas e tão somente encontrar felicidade nas pequenas coisas, afinal, é nelas que ela mora mesmo.

Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

3 Comentários


  1. Sempre passo por aqui, mas faz tempo que nao comento.
    Adorei seu post, suas reflexoes e fiquei de boca aberta com a foto da moca no blog da Gabi. Nao sei onde tudo isso vai parar, se e’ que vai parar, mas todos (pais, agencias, consumidores) precisam fazer algo.
    Com relacao a almocar sozinha, disfrutar os pequenos prazeres da vida, demorei um pouco para entender isso; parecia que eu sempre precisava estar com alguem, para estar bem.
    E’ tao bom quando nos damos conta de que estar conosco e’ tao bom quanto estarmos com alguem e comendo melhor ainda.
    Abracos
    Gra

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    1. Oi Graziela,

      Verdade: andou sumida mesmo! Vi sua dica do blog e até dei uma passeada, mas Lost não está na lista de favoritas, sou meio do contra mesmo.

      Quanto ao padrão de beleza só nos resta torcer para que um dia isso realmente mude, que não seja somente uma onda ocasionada por algum extremo.

      beijos

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