CINEMA: ELVIS

Ai, Deus. Como começar a explicar o filme Elvis, de Baz Luhrmann? Como começar a explicar o Elvis de Austin Butler? Eu sei que em uma resenha você precisa 1. contar do que se trata o objeto resenhado e 2., em um nível pessoal, contar as impressões que aquele objeto causou em você. Vamos então voltar no tempo para o item um, e fazer uma viagem um pouquinho mais curta no passado para o item dois.

Elvis conta a história de um dos maiores ícones culturais de século XX, o “rei do rock” ou simplesmente “o rei”, Elvis Presley. Em formato de biografia calendoscópica explosiva em luz e som (já falaremos sobre isso) o filme percorre toda a vida do astro, desde o nascimento, em 1935, até a morte precoce em 1977, aos 42 anos de idade.

Então, nessa viagem ao passado, temos todo o cenário em que Elvis cresceu e se tornou o astro que foi, com influência massiva de música negra, uma forte inclinação religiosa e uma devoção maior ainda pela mãe. Dirigido e produzido pelo aclamado Baz Lurhmann, o filme tem Austin Butler no papel principal e Tom Hanks como o emblemático empresário do músico, Coronel Tom Parker. Completando o elenco, Helen Thomson interpreta a mãe de Elvis, Gladys; Richard Roxburgh retrata o pai de Elvis, Vernon; e Olivia DeJonge interpreta Priscilla, eterno amor do cantor.

Cinebiografias são sempre uma aposta arriscada. Ou você alcança o sublime (Rocketman, 2019) ou você chafurda no ridículo (Stardust, 2020). Na maioria das vezes, é uma simples questão onde uma dentadura ou uma peruca melhores resolveriam (Bohemian Rapsody, 2018). Navegar entre esses meio-termos é complexo, conseguir superar todos e entregar uma obra de arte instantânea é para poucos. E, em verdade vos digo, o Elvis de Luz Bahrmann, o Elvis de Austin Butler, conseguiu.

E olha que eu tava torcendo para que não conseguisse.

Aqui é onde entro naquela viagem no tempo mais curtinha.

Quando o filme foi anunciado, lá em 2019, ele trouxe a surpresa da escolha do então desconhecido Austin Butler. Tudo o que eu sabia sobre Austin Butler é que ele namorava a nossa queen de High School Musical, Spring Breakers e duzendo filmes de natal para a Netflix, Vanessa Hudgens. Até aí tudo bem, mas alguns meses depois, veio a fofoca, digo, a notícia, de que Austin tinha terminado o namoro de nove anos com a Vanessa porque queria se dedicar por completo ao filme. Fiquei tão brava! Qualquer pessoa que magoar a Vanessa Hudgens automaticamente se torna minha inimiga pessoal e, por isso, a partir daquele momento, Butler se tornou um dos meus maiores nêmesis. Sim, assim do nada. É o meu jeito.

Ocorre que logo no ano seguinte, veio a pandemia. E as gravações do filme foram pausadas, claro. Eu dei risada. O cara tinha terminado o namoro de nove anos e agora estava sem filme e sem namorada, em pleno isolamento. Cruel, eu sei. Mas tenho esse lado implacável mesmo. De qualquer forma, passado isto, este foi um assunto que esqueci completa e rapidamente, assim como completa e rapidamente esqueço de todos os meus ódios mortais.

Só fui lembrar de novo deste filme e da pessoa de Austin Butler semana passada, quando chegou o convite da Warner para assisti-lo em uma cabine de imprensa e resenhá-lo aqui para vocês. Confesso que na fila para entrar no cinema, eu torcia as mãos feito uma vilã de desenho animado, torcendo para o filme ser uma porcaria e eu ter o meu ódio validado. Três anos para fazer um filme e ele ser um flop! Largou a namorada! Bem feito, Butler!!!

Coitada de mim. Nos minutos iniciais do filme, coisa de menos de cinco minutos mesmo, eu já tinha sido completamente atropelada, completamente seduzida, já estava absurdamente rendida. Todo mundo sabe que Luhrmann é bom de espetáculo, um show de luzes, cores e sons é quase o esperado, mas em Elvis ele foi além. O filme é lindo em tantos níveis, em todos os níveis, de um modo que muitas vezes eu me dei conta de que estava com o coração acelerado, e isso porque estava prendendo a respiração por vários minutos, sem me dar conta. Não existe pausa. Não existe um tom abaixo para você se recuperar. O filme é uma sucessão de cenas visualmente e musicalmente impactantes, as quais vão te macetando emocionalmente de tal forma que, em dado momento, você se pega chorando sem que seja necessariamente uma cena dramática, é só porque, ai, cara, o Elvis. O Elvis, sabe? SABE?

E foi aqui que me lasquei. Indo contra todos os meus planos diabólicos de vingança passivo-agressiva baseados em nada, Austin Butler entrega um Elvis tão perfeito, em um retrato tão íntimo, que é quase invasivo olhar demais pra ele. Em um grau de conexão que só vi antes no Elton John de Taron Egerton, a interpretação de Butler é tão visceral, tão sincera, tão cheia de alma, que rapidamente você desiste daquele joguinho comum ao assistir cinebiografias, de ficar procurando onde a caracterização errou. Porque não é uma questão de semelhança física. O Elvis Presley de Austin Butler é o Elvis. E ponto. Nunca houve nenhum ator melhor interpretando Elvis, e nunca mais terá. O Elvis de Austin Butler é definitivo.

Eu saí do cinema completamente desnorteada. Completamente. Fiquei andando a esmo e quase perco a hora de voltar pra casa. Se me chamassem ali para assistir de novo, eu dava meia volta e voltava pro cinema. Durante toda a semana, pensei nisso: se eu pudesse assistir de novo o filme do Elvis, eu assistiria agora mesmo.

Depois fui procurar sobre o Butler. Reportagens e mais reportagens contando que para gravar o filme ele passou os três anos totalmente isolado da família. Ele perdeu a mãe com a mesma idade que Elvis perdeu a sua, e essa conexão foi um ponto decisivo para ser escolhido para o papel. Em uma recente e rara declaração para um programa de TV, Butler disse que ama Hudgens até hoje. Assistindo ao filme, você entende o quanto da sua solidão foram ferramentas que eu usou para construir um Elvis cuja intimidade nunca tinhamos desvendado até então, um Deus ou um herói alquebrado, que aos poucos morre por dentro até morrer de verdade por fora.

É tudo tão intenso e entregue de uma forma tão sensível por Luhrmann que fica até difícil não ficar assim como fiquei, totalmente obcecada. E isso que nem falei de Tom Hanks, simplesmente o maioral sendo o fio condutor de toda a narrativa da história, o narrador mais não-confiável do mundo, mas você é cativado até nisso.

Não sei se até aqui ficou claro, então vou dizer com todas as letras: Elvis é o melhor filme do ano. Viajando no tempo uma última vez, dessa vez para o futuro, garanto para vocês que é um filme que vou amar pro resto da vida.

 

Baz Luhrmann dirige e produz Elvis, além de assinar o roteiro em parceria com Sam Bromell, Craig Pearce e Jeremy Doner. Courtenay Valenti e Kevin McCormick assinam a produção executiva. Com distribuição pela Warner Bros. Pictures, Elvis estreia nos cinemas no dia 14 de julho.

Escrito por Tati Lopatiuk

Tati Lopatiuk é redatora e escritora em São Paulo. Gosta de romances em seriados, filmes, livros e na vida. Suas séries favoritas são Gossip Girl e Breaking Bad. Pois é.

Seus livros estão na Amazon e seus textos estão no blog.

1 comentário


  1. Me lembro, na minha adolescência, ficar sabendo da morte do Rei, chorei horrores pois assistia o que conseguia do homem e assim foi o crush do meu começo de vida.
    Elvis tem a voz única e pra mim é o único cantor que eu preciso vê-lo cantando pois é um show, o cara é o verdadeiro showman !
    Então fiquei encantada em saber que o filme segue essa linha, ansiosa para me maravilhar nessa onda de puro rock’n’roll !

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