CINEMA: CHAMAS DA VINGANÇA

De maneira discreta, Chamas da Vingança chega aos cinemas esta semana diante de um cenário desafiador: além de ser uma adaptação de um dos livros mais clássicos (A Incendiária) do mestre do terror Stephen King, o filme de 2022 é também remake da pérola indie de mesmo título, lançada em 1984, com a ainda criança Drew Barrymore como protagonista.

Contando a história de Charlie, uma garota de 7 anos de idade que nasce com poderes pirocinéticos, ou seja, é capaz de criar fogo só com a mente, poderes estes herdados dos pais, que foram cobaias em um experimento científico do governo, a trama trata da menina lidando com esse poder, aprendendo a compreendê-lo e então domá-lo, enquanto precisa lutar pela própria vida fugindo destes órgãos governamentais que querem mantê-la cativa como um objeto de estudo.

Trazer um remake ou adaptação de autor muito querido não é uma batalha simples, a gente sabe. O peso das comparações é sempre considerável e, assim, o mínimo que se espera é que pelo menos a história se sustente sozinha, caso o telespectador não tenha todo esse contexto de produções anteriores.

Sabendo desses perigos todos, ou não, a forma escolhida para contar esta história nesta versão de 2022 foca no sombrio, tratando o poder de Charile e seus desdobramentos como algo misterioso, digno de medo. É uma escolha válida. O ponto é que, mesmo não tendo lido o livro ou visto o filme de 1984, dá para notar que falta algo. Com seus pouco mais de 90 minutos de duração, o filme parece patinar em seu propósito, entregando um desenvolvimento raso que deixa muito a desejar até para a compreensão geral da história.

Questões sobrenaturais, poderes estranhos ou o bicho papão ali virando a esquina: quem ama terror e seus subgêneros sabe que tudo isso dispensa explicações maiores; o importante é entender como essas situações serão o motor para apresentar pessoas em momentos decisivos com os quais o público pode se conectar.

Stephen King mesmo, é tido como um gênio do terror, mas muitas vezes o que ele faz em suas obras é muito mais primário: mostra tramas de suspense com pessoas em situações-limite. Em A Incendiária, temos uma menina, uma criança ainda, descobrindo algo inesperado em si mesma e entrando em guerra com o mundo para defender quem ela é. No filme de 2022, temos muito pouco disso, em uma história truncada onde nada é contextualizado propriamente de maneira a conduzir o telespectador a sentir que quer que seja: medo, surpresa, espanto ou, o mais desejado, empatia e reconhecimento. Tudo se perde em uma história que, pela forma que se apresenta, acaba escorregando para a hilaridade em uma série de cenas onde, por não entender o que se passa de verdade, quem assiste acaba rindo do absurdo de tudo.

Culpa dos atores? Não tanto. Zac Efron faz o que pode, ainda que esteja desnecessáriamente gostoso para o personagem. A protagonista, interpretada pela não tão novata Ryan Kiera Armstrong, segura muito bem o carão quando necessário. Fica mesmo a sensação que o problema é o roteiro, que na dúvida entre espelhar o livro ou o filme anterior, entre ser uma releitura ou propor algo totalmente novo, não fez nada e se contentou com o básico. Uma pena.

Dirigido por Keith Thomas, com roteiro de Scott Teems, Chamas Da Vingança é produzido pela Blumhouse e Weed Road Pictures, com distribuição da Universal Pictures. Os produtores executivos do filme são Ryan Turek, Gregory Lessans, Scott Teems, Martha De Laurentiis, J.D. Lifshitz e Raphael Margules.

Escrito por Tati Lopatiuk

Tati Lopatiuk é redatora e escritora em São Paulo. Gosta de romances em seriados, filmes, livros e na vida. Suas séries favoritas são Gossip Girl e Breaking Bad. Pois é.

Seus livros estão na Amazon e seus textos estão no blog.

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