Cinema: O Anjo

“As pessoas são loucas? Elas não pensam em serem livres?” 

Com esse questionamento, Carlitos abre a narrativa de O Anjo para contar sua ilíada particular de crimes, amor e desejo por liberdade. Retratando a história real de Carlos Robledo Puch – prisioneiro mais antigo da história da Argentina, há mais de 46 anos encarcerado, o filme chega aos cinemas no dia 18 de abril e promete mexer com o telespectador com sua trama magnética e apaixonante.

No longa, Carlitos é um adolescente que faz sucesso com seus cabelos loiros e jeito de galã de cinema. Tem um talento extraordinário para roubar, algo que ele vê como ideologia. Rouba pela diversão. Ao mudar de escola, conhece Ramon, outro ladrão, e a conexão é imediata. Juntos, embarcam em uma jornada de descobertas, amor e crime. Nos jornais, por todo o país, a aparência angelical de Carlitos, em contraponto com sua atitude brutal de assassino e criminoso, lhe dá o apelido quase carinhoso de “O Anjo da Morte”.

Ostentando produção finíssima de Pedro Almodóvar, O Anjo não dá trégua para o telespectador e atinge como um tiro certeiro no coração durante cada uma e todas as suas cenas. São duas horas de uma narrativa que cativa, emociona e nos faz torcer pelos bandidos, posto que são tão carismáticos, lindos e divertidos. Nisso entra o mérito do elenco perfeito, liderado pelo estreante Lorenzo Ferro como Carlitos, cujo olhar doce e lábios cheios tomam conta da tela, sendo impossíveis de ser ignorados. Como seu companheiro de crimes, Ramón, temos Chino Darin, mais uma vez em uma interpretação brilhante e segura. A química entre os dois é maravilhosa, com uma tensão sexual constante que serve como linha fina de condução da trama.

Sem buscar justificar ou teorizar sobre o comportamento do perigosamente doce Carlitos, O Anjo aproveita para se divertir enquanto conta sua história. Assim, mesmo em meio ao drama, temos cenas engraçadas, trilha sonora on point, e passagens absolutamente inesperadas, que arrancam gargalhadas pelo improvável da coisa. Você jamais vai esquecer, por exemplo, aquele close na cena em que Carlitos conhece o pai de Raul, outro meliante de carteirinha.

Embora retrate uma história real e siga a trilha do que aconteceu de fato, O Anjo toma liberdades poéticas que fazem dele mais um exercício artístico do que um documento fiel. No longa, a sexualidade de Carlitos é ambígua, algo ainda mais gritante quando em cena com Raul, e quanto a isso houve alguma divergência quando o filme foi lançado em seu país de origem. O próprio Carlos Alberto Puch se pronunciou, direto da cadeia, onde deve ficar até o fim da vida, dizendo que sua relação com Raul não era nesses termos. Ainda assim, para o filme funciona lindamente, dando à trama todo o apelo sensual e até amoroso que torna uma história mais interessante do que as outras.

Além disso, indo contra uma prática costumeira nas cine-biografias, O Anjo abre mão de mostrar fotos reais de Carlitos ou de contextualizar como ele está nos dias de hoje. A história que se conta é a partir desse recorte do momento em que Carlitos conhece Raul e formam um par mortal, espalhando pelo país um rastro de morte e assaltos. O Carlitos que conhecemos é esse Carlitos de Lorenzo Ferro, com sua boca irresistível, seu jeito debochado e seu questionamento avassalador: ninguém pensa em ser livre?

Sob essa ótica, O Anjo molda a realidade do jeito mais provocativo possível, nos entregando um diamante perfeito e lapidado de cultura pop, daqueles filmes candidatos a cult imediato. Se a história contada é maior ou menor que a verdadeira, não sabemos. Na dúvida, ficamos com essa da telona, isenta de erros e prometendo uma aventura incrível para quem tem a coragem de ser livre.

O ANJO
Argentina – Espanha | 2018| 125 min. | Biografia – Drama
Título Original: El Angel
Direção: Luis Ortega
Roteiro: Luis Ortega
Elenco: Lorenzo Ferro, Chino Darin, Cecilia Roth, Mercedes Morán, Luis Gnecco e Peter Lanzani
Distribuição: Pagu Pictures

Escrito por Tati Lopatiuk

Tati Lopatiuk é redatora e escritora em São Paulo. Gosta de romances em seriados, filmes, livros e na vida. Suas séries favoritas são Gossip Girl e Breaking Bad. Pois é.

Seus livros estão na Amazon e seus textos estão no Medium.

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