Cinema: No Portal da Eternidade

Passados quase 130 anos de sua morte, a obra de Van Gogh ainda impressiona e desperta sentimentos. Andando em círculos, de tempos em tempos o pintor holandês que morreu na miséria parece ressurgir e ficar “no auge” repetida e alternadamente durante os anos. É o que tem acontecido nos últimos tempos, quando vemos suas pinturas sendo inseridas em nosso cotidiano ao virarem objetos de desejo, na forma de roupas, tênis, mochilas, artigos de papelaria e o que mais se imaginar.

E filmes, claro. Vários filmes. A obra de Van Gogh é ciclicamente explorada e analisada à exaustão em parte por que, mesmo séculos depois, ainda se mostra quase impossível entender por completo o que se passava em seu coração. Seus quadros são expressivos, sua alma era boa, sua vida foi marcante. Mas por qual motivo ele era assim? O que o fazia se sentir desse jeito e pintar dessa maneira? Como o mistério não tem explicação segura, seguimos mergulhando em seu legado e recontando sua história.

Mergulhar no legado de Van Gogh e contar mais uma vez sua história é, aliás, exatamente o que faz No Portal da Eternidade, drama que chega aos cinemas neste dia 07 de fevereiro e já recheado de prêmios e indicações.

Trazendo Willem Dafoe interpretando o pintor, com um entrega absurda, diga-se, o filme se passa nas aldeias onde Van Gogh se refugiou quando a vida pareceu pesada demais em Paris. No entanto, mesmo vivendo escondido, o artista ainda não consegue ficar à salvo de seus monstros internos e algozes externos. Com a amizade de Gauguin, seu mundo se expande, e assim como é grande a altura que os dois sobem juntos, grande é a queda quando o pintor francês decide partir. E assim, Van Gogh não tem outra escolha senão a solidão – mesmo com o apoio do irmão – a inescapável solidão que o tornaria o artista atormentado e brilhante que ele foi.

Sob a direção sensível do cineasta e pintor Julian Schnabel ( de “O Escafandro e a Borboleta”), No Portal da Eternidade busca chegar ao coração de Van Gogh não por meio de explicações, datas, fatos ou teorias. Busca chegar através do sentimento. O filme é como um quadro “ao vivo” de Van Gogh, bonito e plácido, um bálsamo, que se derrama diante dos olhos do espectador e deixa para ele a tarefa de sentir e reagir àquela história, sem que lhe seja dito qual caminho seguir, qual interpretação tomar.

Entre silêncios que dizem tudo e diálogos que dão o norte da figura que Van Gogh era, o longa entrega um olhar renovado sobre o artista, um olhar amoroso e emocionado, sem julgamentos, empático. Uma homenagem que acalenta o coração de quem gosta da obra do pintor e atiça a curiosidade de quem está chegando agora.

No Portal da Eternidade, como dito, chega no auge tal qual seu protagonista. Por sua interpretação no longa, Willem Dafoe foi premiado como Melhor Ator na Copa Volpi do Festival de Veneza, assim como no Satellite Award. Além disso, o ator também concorre ao Oscar 2019 pelo personagem.

Irretocável, o filme é uma oportunidade imperdível de se deixar apaixonar pela obra de Van Gogh, sentindo o que ele sentiu e encontrando nas nuances algumas possíveis explicações. Se é explicação o que você está buscando. Mas o filme vai além de qualquer teoria. Totalmente baseado nas pinturas do artista, é um retrato poético e sensível, que se conclui com um final que lança ainda mais mistério sobre a nunca totalmente esclarecida morte do pintor.

Entre mistérios insondáveis e obras de arte que até hoje mexem com nossa alma, Van Gogh segue sendo uma incógnita. Tão estranho e tão próximo, causando curiosidade, despertando atenção e emocionando, sempre mais, mesmo após tantos anos.

Garantindo que essa roda (ou seria um girassol?) nunca pare de girar, No Portal da Eternidade garante que o pintor continue vivo, cada vez mais vivo. A despeito de toda dor, sempre vivo e fazendo sentir. Como ele mesmo sonhou, um dia.

Com estreia prevista para 07 de fevereiro nos cinemas brasileiros, No Portal da Eternidade tem no elenco Emmanuelle Seigner, Rupert Friend, Mads Mikkelsen e Oscar Isaac. Com roteiro de Jean-Claude Carrière e Julian Schnabel, a produção é da Iconoclast e a distribuição é da Diamond Films.

Escrito por Tati Lopatiuk

Tati Lopatiuk é redatora e escritora em São Paulo. Gosta de romances em seriados, filmes, livros e na vida. Suas séries favoritas são Gossip Girl e Breaking Bad. Pois é.

Seus livros estão na Amazon e seus textos estão no Medium.

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