Livro: Sonhei que a Neve Fervia

Sinopse

 

Em agosto de 2007, a morte do marido pegou a paulista Fal Azevedo – dona de um dos blogs mais acessados da internet, o ‘Drops da Fal’ – de surpresa. Incredulidade, raiva e tristeza se misturaram ao conforto das mensagens de solidariedade e carinho de amigos e desconhecidos, leitores do blog. ‘Sonhei que a neve fervia’ pretende rever, através de e-mails e textos publicados na web, a jornada da autora deste livro.

Eu já terminei de ler Sonhei Que a Neve Fervia tem um tempo e logo criei o rascunho deste texto. Perdi a contas das vezes em que o abri para escrever sobre o que li. Mas nada saia.

E não não é porque não gostei de livro, mas porque o adorei e quero conseguir colocar isso em palavras, fazer com que vocês entendam o quanto o livro é bom, o quanto você ri e chora, o quanto vale a pena. Um medo de que meu texto sobre o livro nunca fique a altura do que o livro realmente é.

A vontade de simplesmente colocar aqui a capa dele e lhes dizer: vão lá, comprem, se emocionem, amem.

O livro é um apanhado de textos, memórias, conversas, impressões e sentimentos. Da Fal, e um pouco das pessoas a sua volta, sobre a perda do amor de uma vida, de como se sobrevive, de como se recomeça, de como se redescobre como respirar, como acordar, como caminhar, como se refazer.

Sim, ele é por vezes muito triste, mas é sempre lindo. É compartilhar um sentimento único de uma pessoa que tem um jeito único de ver a vida.

O que não conhecemos, o que não reconhecemos como parecido conosco, o que pode ou não pode ser uma ameaça, o que pode ou não pode querer nosso mal, o que vai ou não vai usar tudo o que dissermos contra nós no tribunal, o que vai ou não vai desvendar nosso segredo, o que pode ou não pode gostar de nós, o que talvez – só talvez – possa rir das nossas fraquezas, o que é turvo, o que é límpido. Vamos matar a besta, let’s kill the beast. O que deve ser morto, exterminado, ignorado e evitado, porque ousa ser qualquer coisa que não somos nós.

***

Há muito tempo atrás eu escrevi aqui sobre a minha descoberta da Fal, como faz tempo eu conto de novo: um dia eu estava lendo o blog da Cora Ronai e ela anunciava em letras altas ‘ela voltou, ela voltou’. Eu fui lá ver quem era ela e achei a Fal. Ela havia ficado afastada por um tempo, iniciando o processo de cicatrização de sua perda e voltava a escrever. De sua volta haviam apenas dois textos.

Mas eu passei semanas e semanas com o blog dela aberto em uma das abas do meu navegador, voltando dia a dia de seus textos e me encantando. Ria sozinha com suas descrições dos capítulos de novela ou da entrega do Oscar. Ria dos apelidos engraçados, descobria quem era o Bacco, a Maliú e o Alexandre. Lembro de várias vezes eu ler seus textos em voz alta pro marido porque eu achava que todo mundo tinha que conhecer aquilo que eu estava lendo.

Lembro de eu rindo até não poder mais do dia em que ela aplicou catsaway na cama, ansiosa por poder dormir sem ser empurrada pelos gatos, e ela acabou dormindo na poltrona achando a cama empesteada, enquanto eles não estavam nem aí para o cheiro deixado pelo produto.

Comprei então seu livro Minúsculos Assassinatos e ri do fato de tê-lo encontrado entre os livros policiais da livraria, porque aquele não era um livro de suspense policial, mas um livro sobre o amadurecimento de uma pessoa e as escolhas que fazemos pelo caminho. Dos pequenos assassinatos de sentimentos e pedaços nossos que acontecem no dia a dia sem chamar a atenção de ninguém. Eu não conseguia largar o livro e ele acabou caindo na privada (só com água, ainda bem) do banheiro do quarto que eu estava ocupando no SESC Bertioga naquele final de semana – numa dessas brincadeiras do destino, já que a história se passava naquela cidade – porque eu tentava escovar o dente e ler ao mesmo tempo.

A cada dia eu me tornava mais fã e resolvi desbravar o sistema de comentários do blog, que na verdade se revelou uma imensa sala de bate-papo de amigos que gostavam da Fal tanto quanto eu.

O tempo passou e o que posso eu dizer disso tudo? Me apaixonei pela Fal, pessoa que escreve lindo porque seu interior é lindo. Declaro meu amor por ela sem medo, porque pessoas especiais assim, quando entram em nossa vida, precisam saber que são amadas. E a Fal com certeza é única.

Então talvez, apenas talvez, eu não sabia exatamente o que escrever sobre o livro dela porque eu a amo tanto, mas não é porque eu a amo que quero que vocês também leiam, mas porque ele é bom. Mas como saber exatamente explicar isso para vocês é que eu não sei fazer.

 

Esta não foi uma semana fácil, não foi uma semana bonita, e ao me deparar, em duas situações diferentes, mas parecidas, com o óbvio ululando bem na minha cara, dei-me conta de que as situações que vivemos, você e eu, existem apenas e tão somente na cabeça de cada um. E que o sentido de cada palavra e o significado de cada gesto é particular e intransferível: eu não estou dentro da sua cabela e nem você está dentro da minha. O tempo passa, inexorável, nós mudamos em processos separados, e o que foi e não foi, houve e não houve, aconteceu e não aconteceu, ganha novas intenções, dores, reveste-se de novas cores, revela outras verdades.

Escrito por Simone Fernandes

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

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