Eu e Grey’s Anatomy

Quando eu criei o blog eu usei um modelo pré-existente que tinha duas páginas: uma para os textos que eu publicaria, a segunda para que eu falasse sobre mim e sobre o blog. Ao escrever sobre mim eu acabei por usar uma referência que, eu sabia, só ficaria clara para quem conhece a serie: ainda procuro por aquela que poderei chamar de minha pessoa, para quem eu ligarei quando cometer um assassinato e me ajudará a esconder o corpo.

Vocês não fazem ideia de quantos comentários e e-mails eu recebi de pessoas que, bem intencionadas, queriam me ensinar que o melhor amigo é aquele que me ajudaria ao fazer com que eu me entregasse para a polícia.

Eu entendo mesmo a boa intenção dessas pessoas e nem lhes tiro a razão, a questão é que meu modelo ideal de amizade é um pouco diferente pelo simples fato de que eu sou um pouco diferente.

Esse um pouco diferente que faz com que eu olhe a estranha, nem tão bonita, nem tão inteligente, nem tão bem resolvida, Meredith Grey e me identifique com ela. Esse pouco diferente que fazia com que eu acreditasse que uma amizade como a dela e de Cristina era o meu ideal de amizade.

Talvez por isso eu tenha repetido tantas vezes, ao longo dos últimos cinco anos, que Grey’s Anatomy é um seriado sobre uma amizade – fugindo do clichê de que é uma serie sobre pessoas.

Só que, quando o canal Sony lançou o concurso que fará com que os sites com o melhor conteúdo sobre Grey’s Anatomy e o post mais original sobre a serie apareçam em sua programação, eu não pensei em nada disso. Como meu blog não é só dedicado à serie, obrigatoriamente eu teria de concorrer na segunda categoria.

E como ser original quando já se escreve semanalmente sobre a serie durantes anos consecutivos? Falar das características marcantes que fazem com ela seja o que é? De sua trilha sonora sempre cuidadosa (tá, um pouco menos nos últimos tempos)? Sobre o hospital que lhe serve de cenário e do qual parece já termos visto cada canto? Falar sobre as marcantes cenas no elevador que surgiram a cada temporada (neste quesito a serie compete com NCIS)?

Ou falar dos meus personagens favoritos? De quando Bailey, num jantar de Natal, mostra um lado frágil então desconhecido, quando fala de sua fé ou de quando ela chora ao desistir do cargo que realmente queria porque enfrentava a barra de um casamento que desaba enquanto seu filho ainda é pequeno?

Falar da delicada partida de George, de quem sempre gostei, mas que teve seu personagem esvaziado muito antes de acabar morto em um uniforme do exército americano?

Ou Alex e a forma como ele amadureceu e me emocionou ao longo destes sete anos, mesmo em sua pose de badboy e mesmo pisando na bola com a Meredith?

Ou mesmo lembrar do quanto eu xinguei a escritora Shonda Rymes porque não aguentava ver Izzie e seu fantasminha romântico por aqueles corredores, ou quando ela colocava Hunt e Callie agindo como se não fossem eles próprios, para depois eu me apaixonar pela serie novamente e dizer o quanto ela era boa em contar uma história?

Falar daquele que acabaria sendo seu episódio mais marcante – ou serie de – com um homem profundamente triste e transtornado andando por aqueles corredores e acabando por matar muitas pessoas queridas, algumas delas que eu odiava até um pouco antes, quando chegaram na estranha fusão de dois hospitais?

Falar de Cristina, personagem que revelou do que é capaz Sandra Oh? Que chorou a fuga do noivo que amava e que servia de modelo, que teve forças e até o egoísmo necessário para apoiá-lo de uma maneira absurda naquela sala de cirurgia. Cristina que se perdeu ao ter de operar o amor da vida de sua melhor amiga e depois se encontrou ao ter de salvar uma vida sem aviso prévio ou preparação – isso depois de passar por um porre inesquecível.

Ou mesmo falar de Meredith, a protagonista com a qual tanto me identifico? Que amou e sofreu, se humilhou (quem esqueceria o “pegue a mim, me escolha!”), amou novamente e encontrou certa paz e felicidade, cresceu, jogou as cinzas de sua mãe em uma pia esterilizada de um centro cirúrgico, fez terapia, negou seus sentimentos, escondeu um aborto de seu marido, lutou para ser mãe, tomou uma decisão baseada somente em sentimentos e por conta dela terminou a temporada passada com uma criança em seus braços e o marido, de um casamento de post-it, longe de casa.

Pensando em tudo isso resolvi escolher dizer apenas que aquela tal amizade, aquela que significa que você encontrou a sua pessoa, acabou acontecendo. E não raramente me vejo na tela ao ver Meredith e Cristina – a cena em que Cristine pergunta para Meredith se ela quer um abraço e a outra responde que não é uma das mais queridas – ao vê-las compartilhando tanto, mesmo que em momentos diferentes ou sem falar nada.

Uma amizade de poucas declarações ou abraços, mas sincera em sua preocupação com o outro – outro que eu diria ser tão inteligente e focado quanto Cristina, mas também com sua inabilidade social e também com suas tiradas sarcásticas que fazem perder amigos, mas nunca a piada. Na verdade, somos os dois um pouco assim, mas eu ainda tenho aquele lado culpado ou coração maior que Meredith tem, até na questão de ter ou não filhos.

Mesmo quando Cristina fica sozinha no sofá pensando na decisão que tomou enquanto Meredith não pode ficar ali com ela porque tem uma criança no andar de cima. Mesmo em sua tristeza imensa Cristina entende aquele gesto e entende que aquilo não diminui a amizade das duas. Porque a amizade verdadeira não está nos grandes atos, mas nas pequenas coisas do dia a dia.

Porque amizades assim são raras e, por isso mesmo, originais, especiais.

Porque talvez, somente talvez, se eu não conhecesse a amizade das duas, eu não reconhecesse que encontrei esse bem tão precioso.

Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

12 Comentários


  1. Ca-ram-baaa !!!
    depois deste baita-lindo-emocionado comentário estou mudando de opinião e voltar a ver GA, abandonei no começo desta temporada por causa do rema-rema da Cristina
    AFF ….. devo ser a única mas não suporto Cristina como médica, como pessoa até que ela me diverte mas no quesito médico que don’t care para paciente … não atravessa a garganta

    comecei a ver GA já tardiamente, foi uma amiga que me falou muito bem da série e lá fui …. nossa como chorei …. chorava muito vendo essa série, me comovia me emocionava e me deixava ansiosa pra ver mais, os finais de temporada então … era um riacho de lágrimas
    gostei e ainda gosto da série, acho que só precisava de um tempinho longe para poder voltar

    Simone espero sinceramente que vc ache o que vc procura

    lindo texto mesmo !!!

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    1. Brigada Cleide! Na verdade, como eu disse no finalzinho do texto, já achei esse amigo e acho que é por isso que eu ainda amo tanto a série apesar dos tropeços. 🙂

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  2. Também encontrei! E também gosto demais da amizade entre as “twisted sisters”. Acho que esse deveria ser o foco da história e não a perda de tempo com os personagens chatésimos e histéricos que temos que aguentar durante a temporada…

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  3. Eu comecei a ver GA despretenciosamente. Uma amiga que dou carona diariamente (não, não consigo vir de bicicleta), então dou carona, me emprestou os boxes com cada temporada que ela tinha comprado e ainda não tinha visto. Claro, que vi todos os DVD’s dela e ainda terminei com os disponíveis na locadora perto de casa. Aí parei! Não consigo ver na TV, tenho sono, muito sono! Mas, Simone a amizade de GA é algo incrível, adoroooo! Agora preciso continuar assistindo, mas ainda não tomei coragem. Adorei o seu texto e claro ainda procuro por aquela pessoa para chamar de minha pessoa kkkkkk. bj

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  4. Querida Simone,

    Eu fiz de tudo para gostar de GA e não consegui. Na verdade, eu já estou farta de seriados médicos e, depois de ER, com o bonitão George Clooney (que também já me cansou), eu não consigo mais aturar tramas ambientadas, em hospitais.

    Infelizmente ou felizmente, eu não consegui sentir empatia com os atores e muito menos com os personagens. Na verdade, somente ER prendeu a minha atenção e ficou, no meu imaginário, e até hoje, é nesta série que eu penso, quando eu associo médicos e tv.

    Eu sinto a mesma antipatia, em relação a outras séries de grande repercussão, como Glee, Bones, House, Lost (como eu odeio esta!), Heroes, Gossip Girl e outras, que eu nem consigo lembrar.

    Quanto ao seu texto, bem, você é o tipo de pessoa, que dá totalmente asas a sua imaginação e tem sensibilidade. Você escreve com leveza e paixão. É óbvio, que trabalhar com este blog é o seu melhor momento do dia.

    Parabéns, Gabriela.

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  5. Si que lindo texto….eu amo GA apesar de todos os altos e baixos de todos os personagens, eu não consigo deixar de assistir e me emocionar, sou uma das orfãs de ER, então me identifico com GA(apesar de a serie ser bem diferente de ER).

    Não achei ainda esse tipo de amigo, mas tenho amigos que chegam perto e que eu considero muito 🙂

    Bjs Tati

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  6. Arrasou! Esse é o post que você deve mandar para o concurso da Sony.
    Mais original que esse, só dois desses rsrsrs…
    Obrigada por escrever tudo o que eu gostaria de dizer sobre Grey´s Anatomy, porém, não ter a capacidade retórica como a sua para fazê-lo de maneira tão brilhante.
    Parabéns!

    P.S: Ah! Não esquece de mandar esse texto pro concurso.

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  7. Eu juro que eu to chorando.Eu fiz a minha melhor amiga gosta de Grey’s Anatomy e eu chamo ela de Cristina….:’ )

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  8. Este seriado é mariavilhoso. Infelizmente, não consegui assistir depois da saída de Isaiah Washington. De todos os casais, como eles afirmavam somos UM TIME. Que pena que na vida real ele seja homofobico.

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