Cinema: Estás me matando Susana

Em um relacionamento quase sempre não existe um mocinho e um bandido. Na verdade ficam as duas partes do casal trocando de papéis ao longo do tempo. E isso é verdade mesmo quando uma “traição” acontece – e se coloco traição entre aspas porque se algo eu aprendi nesta vida é que isso é tão relativo quanto Einstein diz serem os princípios da física.

Quando Estás Me Matando Susana começa – e, gente, como eu amei o fato de escolherem esse título todo português correto, perfeito para um filme em que a protagonista é uma escritora -, é fácil dizer que o Eligio (Gabriel Garcia Bernal lindo em sua humanidade até o último fio de cabelo) é o culpado quando Susana (Verónica Echegui) o deixa.

Entre os primeiros minutos do filme e o momento em que ele percebe que ela partiu somos bombardeados com seus erros: ele é distraído na relação, flerta (e um pouco mais) com qualquer rabo de saia que apareça em sua vida, bebe com os amigos toda a noite (a ponto de cair), é cego para o fato de que ela está infeliz.

Ainda quando ele resolve deixar tudo (a carreira de ator quase decolando, o apartamento, os amigos, seu país) e ir atrás de Susana no frio Iowa o máximo que ele consegue de nós é um sorriso solidário por sua falta de noção, mas ainda assim não lhe damos razão.

Apenas a medida que vemos as reações de Susana à chegada inesperada do marido, mesmo que na ficha que ela preencheu para o curso de escrita que resolveu fazer ela tenha marcado o quadradinho solteira, e a forma como os dois funcionam juntos é que passamos a entender que relações não podem ser medidas por uma régua única.

O roteiro de Luis Camara foi baseado no livro Cidades Desertas, de Jose Agustin, conseguiu manter a essência do livro com relação a honestidade dos sentimentos dos dois protagonistas – ainda que fique a nos dever um pouco com relação ao que Eligio sente e passa ao chegar a um país que não conhece e para o qual não se preparou.

Eligio tem, a despeito de seu comportamento, uma inocência atroz. Ele acredita que o amor pode vencer tudo. Susana, do outro lado, se sente presa por não conseguir entender qual escolha realmente fez ao se casar.

Ao decidir partir, Susana desafia a crença do marido e enquanto ela acha que a solução que deu foi simples, ela atravessa o mundo atrás dela porque para ele não existe outro caminho. E, ao escolher isso, Eligio cresce como personagem, ele se coloca em situações que não se colocaria por escolha própria.

Bernal e Veronica fazem um belíssimo trabalho ao manter esses personagens em terram, ao nos permitir ver o quanto suas emoções afetam suas decisões e suas certezas e fazer isso em conversas críveis, reais.

Estás Me Matando Susana é uma comédia romântica rara, uma história de amor verdadeira contada de forma ao mesmo tempo delicada e crua. Feita para nos lembrar que em uma relação certo e errado mudam de forma e importância, tudo depende do que se sente.

O filme chega aos cinemas do Rio de Janeiro, Niterói, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre,  Curitiba,  Florianópolis, Salvador,  Vitória,  Fortaleza, Barueri, Teresina e Jab Guararapes nesta quinta, dia 18 de outubro. A estreia em São Paulo acontecerá na próxima semana, dia 25.

 

Título Original: Me estás Matando Susana
Direção: Roberto Sneider
Roteiro: Roberto Sneider, Luis Cámara
Baseado no romance de José Agustín
Elenco: Gael García Bernal, Verónica Echegui, Ashley Hinshaw
Distribuição: A2 Filmes | Mares Filmes

Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

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