Cinema: Acrimônia

Ao contrário do que muitos diriam, a condição primordial de um suspense não é lhe surpreender, mas sim lhe prender. Um bom suspense lhe prende a uma história que pode até mesmo ser previsível, mas a forma como será contada prevalece sobre isso, garantindo tensão e emoção.

Acrimônia, suspense dramático que chega aos cinemas nesta quinta, dia 02 de agosto, em teoria dispensa a premissa de surpreender: quando Melinda (Taraji P. Henson) começa a contar sua história para a psicóloga que o tribunal lhe obriga a procurar, sabemos que ela está com raiva e sabemos que ela foi enganada. Nos recostamos, então, ansiosos para saber o que aconteceu – e o filme é todo narrado por ela, entre idas e vindas do passado para o presente.

A escolha do nome do filme, uma palavra de pouco uso cujo significado é explicado ainda nos primeiros minutos, poderia ser um indicativo de que Tyler Perry, diretor e roteirista, estaria empenhado em elaborar sua história, nos manipular sobre o que realmente aconteceu.

O que ele consegue, no lugar disso, é ser previsível sem causar emoção (com exceção de risadas não intencionais), é exagerado, seus personagens carecem de camadas e o elenco parece deslocado – nem mesmo Taraji se salva (e eu adoro essa mulher em cena).

Salva-se, com  honras, sua trilha sonora baseada em músicas da rainha Nina Simone.

A presença de Melinda no tribunal seria consequência de seu relacionamento com Robert (Lyriq Bent), por quem ela se apaixona muito jovem, por quem sofre ao ser traída e com quem se casa, a despeito da posição contrária da família. Robert é um sonhador que espera ter seu invento descoberto e valorizado por uma grande corporação de tecnologia enquanto a esposa paga as contas.

O relacionamento cobra seu preço depois de anos de sacrifício de um lado e pouco reconhecimento do outro, fazendo com que Melinda alimente raiva e frustração pelos sonhos não realizados, pelas contas em atraso e, ela acredita, pela ingratidão que o marido demonstra por tudo isso, até que ela finalmente pede o divórcio. Para que o marido consiga se erguer em seguida e ela se sentir ainda mais injustiçada.

Melinda, então, se torna uma versão piorada da Alex de Glenn Close em Atração Fatal (os mais novos conhecem o file?).

Com um roteiro como esse e diálogos péssimos, nem mesmo a presença forte de Taraji consegue colocar as coisas nos trilhos – além do meu desespero pessoal imaginando o quanto os olhos dela deveriam estar coçando por usar lentes de contato coloridas (por quê, senhor?).

 

Produção: Tyler Perry Studios, Lionsgate
Distribuição: Paris Filmes
Elenco: Taraji P. Henson, Lyriq Bent, Crystle Stewart, Ptosha Storey, Jazymn Simon, Ajiona Alexus, Antonio Madison, Bresha Webb, Danielle Nicolet, Nelson Estevez, Kendrick Cross
Direção e roteiro: Tyler Perry
Produtores: Tyler Perry, Ozzie Areu, Will Areu, Mark E. Swinton
120 minutos

Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

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