Cinema: Paraíso Perdido

Jogada na sarjeta após ser vítima de um ato de violência, Ímã sorri com os dentes cheios de sangue: “Não se preocupe: eu sou feliz”. E mesmo que naquele instante não pareça, você vai acreditar no que ela diz. Em Paraíso Perdido, a boate onde Ímã canta, é tudo assim: violento, cru, sem meias palavras. E, ainda assim, feliz.

Fosse apenas para levantar a questão da violência contra pessoas trans, Paraíso Perdido ainda seria um filme relevante, mas ele vai além. Marcando o retorno de Monique Gardenberg ao cinema, dez anos depois do aclamado Ó paí, ó, a diretora volta à telona com um melodrama recheado de clássicos da música popular romântica para contar a a história de uma excêntrica e carismática família de cantores, unida pela tragédia e pelo amor.

E tem um pouco de tragédia grega e muito de reviravoltas e desencontros nessa história, que marca também o retorno de Erasmo Carlos como ator de cinema, após quase 50 anos longe das telonas. No filme, ele é José, dono da boate Paraíso Perdido, um clube noturno movimentado por apresentações musicais de seus herdeiros. O policial Odair (Lee Taylor) se aproxima da família ao ser contratado para fazer a segurança do jovem talento Ímã (Jaloo), neto de José e alvo frequente de homofóbicos. Aos poucos, o laço entre o agente e a família de artistas vai se revelando mais forte – e com revelações surpreendentes.

Temas universais como abandono, traição, paixão e vingança são tratados no filme em meio às apresentações musicais da boate, em uma trilha sonora que faz as vezes de espinha dorsal da narrativa. Jaloo, cantor da cena independente que estreia em seu primeiro papel como ator, conta que teve medo de atuar e parecer artificial “como a Carla Perez em Cinderela Baiana”, mas o que vemos é o extremo oposto: seguro de si, dá toda a sua verdade ao interpretar Ímã, magnetizando o olhar do espectador em todas as cenas com sua graça e leveza para levar a vida mesmo diante de tanto sofrimento e preconceito.

E, além disso, Jaloo está mais do que bem acompanhado no filme, que traz o que Monique chama de “elenco dos sonhos”. Além de Erasmo Carlos, como patriarca da família, temos ainda seus netos Celeste (Julia Konrad), filha de Angelo (Julio Andrade), e a drag queen Imã, filho de Eva (Hermila Guedes). Em torno desse núcleo, estão o policial Odair, sua mãe, Nádia (Malu Galli), o professor de inglês Pedro (Humberto Carrão), o namorado de Celeste, Joca (Felipe Abib), e a misteriosa Milene (Marjorie Estiano).

São muitos personagem mesmo e é essa “salada cultural” que dá o tom da trama, carregada no exagero e no sentimento. No longa-metragem, a casa noturna serve de palco para que os atores interpretem sucessos de José Augusto, Roberto Carlos, Fernando Mendes, Odair José, Waldick Soriano, Raul Seixas e Belchior. Entre as 20 músicas da trilha, estão “Tortura de amor”, “Minhas coisas”, “120 150 200 KM por hora” e “Quem tudo quer nada tem”.

Não é um musical, mas não seria nada mal se fosse. Dez anos depois, Gardenberg nos traz essa pérola que reverencia o Brasil, a cultura LGBTQ+ e o amor, em uma história forte e, por mais estranho que possa parecer, apesar de triste, feliz.

Com direção musical de Zeca Baleiro, direção e roteiro de Monique Gardenberg, coprodução Dueto Filmes e Casé Filmes, e distribuição Vitrine Filmes, Paraíso Perdido estreia dia 31 de maio nos cinemas brasileiros.

Escrito por Tati Lopatiuk

Tati Lopatiuk é redatora e escritora em São Paulo. Gosta de romances em filmes, livros e na vida. Suas séries favoritas são Gossip Girl e Breaking Bad. Pois é.

Seus livros estão na Amazon e seus textos estão no Medium.

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