Os ônibus de São Paulo

Eu já disse que eu nunca fui lá muito boa em separar assuntos, não é verdade? Provavelmente porque minha mente vai de um assunto a outro em alta velocidade – adoro ter amigos que também são assim, o que garante horas de conversa – e meus textos apenas refletem isso.

Pois bem, entre muito trabalho – estou indo mais dias ao escritório, mais trabalho, responsabilidades novas e não eu não acho um retrocesso. Não voltei a ser uma funcionária oito horas por dia, cinco dias por semanas, mas estou mais ocupada que nos últimos anos e achei a mudança bastante positiva. E daquelas coisas que o universo faz na hora certa, já que eu andava me sentindo um tanto desocupada e bem desanimada com os blogs e tudo mais (blogs ao que parecem voltarão a ser uma distração ao invés de um trabalho).

Em meio ao muito trabalho minha semana foi tomada pela luta inglória de reclamar das mudanças que a prefeitura de São Paulo está propondo em seu novo mapa do transporte público de São Paulo.

Na minha região isso significa a retirada de importantes linhas e, sem elas, a sobrecarga de outras que já são lotadas hoje. Além disso, as linhas que serão mantidas cortarão o bairro apenas nas avenidas principais (já imaginou todos os idosos da região tendo de encarar as ladeiras daquela conhecida como a Suíça de São Paulo no passado?) e não serão capazes de levar as pessoas aos mesmos destinos das que estão sendo tiradas, será preciso baldeações para chegar aos mesmos lugares.

No final de semana ouvi um “é só uma baldeação sua preguiçosa” de uma pessoa no grupo do bairro no Facebook. Ainda estou na dúvida se foi um babaca de marca maior ou um robô do governo, de qualquer forma não é alguém que usa o sistema de transporte público da cidade, não faz ideia de quanto tempo se leva fazendo essas baldeações e é incapaz de imaginar alguém sendo obrigado a andar duas, três quadras no meio de uma chuva torrencial se necessário… Se baldeações já fazem parte de nossa vida, a grande verdade é que em São Paulo elas estão distantes de ser sequer semelhantes as de cidades com um mapa ferroviário muito melhor (inclusive o da cidade do México, que foi iniciado no mesmo ano) ou mesmo Curitiba (que tem um sistema muito eficiente já instalado).

E eu tô aqui reclamando como uma pessoa que mora praticamente no centro da cidade e hoje pega um ônibus só e passarei a pegar um ônibus e um metrô (de novo: um ônibus que hoje já não dá conta do volume de pessoas que atende). Agora imagine alguém que já sai das cidades do entorno, pega um trem até a Lapa e então terá de pegar no mínimo mais duas conduções até o trabalho. Uma pessoa que muitas vezes já sai de casa antes de amanhecer.

Não tem como não pensar no fato de que quem quer que esteja tomando essa decisão não só não conhece o sistema, não o usa, como também não liga para o que as pessoas que usam o sistema e continua confundindo empresa com estado, o primeiro tem de dar lucro, o segundo precisa atender os moradores da melhor forma possível.

Ah, também já ouvi que eu estou reclamando porque isso me atinge. Pois desde dezembro de 2017, quando o projeto foi anunciado, eu assinei mais de vinte abaixo assinados de linhas pelo cidade toda cuja eliminação terá efeito tão ruim ou pior que as eliminadas na minha região.

Porque São Paulo tem um péssimo sistema de transporte público já hoje. Porque uma cidade baseada em um sistema individual de transporte um dia vai parar. Porque uma cidade em que as pessoas usam mais o sistema público e caminham é mais segura que uma em que as pessoas preferem se manter sozinhas em armaduras de ferro.

Ah e não, isso não é fake news como a Secretaria de Transportes está dizendo e como um montão de gente passou a acreditar, sem acessar o link que a própria compartilhou.

Para ler mais sobre o assunto:

Prazo para consulta pública acaba nesta segunda

Mudanças nos ônibus devem aumentar o número de baldeações na periferia

Prefeitura vai cortar linhas de ônibus em São Paulo?

Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

1 comentário


  1. Se prepare para o caos amiga! Aliás, você já está vivendo o caos. O mesmo aconteceu no Rio, quando algumas linhas foram excluídas. Hoje, é praticamente impossível pegar um ônibus vazio, que nem sempre tem ar condicionado (imagina no verão, que delícia!) e isso depois de ficar um bom tempo no ponto.
    Aqui em Petrópolis, mesmo a cidade sendo menor, o transporte público também é precário. As linhas disponíveis não dão conta de atender toda a cidade, sem contar que os veículos estão caindo aos pedaços.
    Falam tanto dos europeus, mas a parte boa, ninguém copia.
    Saudades Londres.

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