Polícia Federal – A Lei é Para Todos cumpre tarefa de contar parte de uma história que ainda não acabou

Há alguns anos, em um evento em que o grupo Discovery comemorava os ótimos resultados de seu canal mais novo, o Investigação Discovery, fui apresentada ao termo “docudrama” pelo vice-presidente da empresa para a América Latina. Ele se aplica aos programas que retratam tramas investigativas ou históricas misturando depoimentos de pessoas envolvidas e a dramatização de alguns acontecimentos.

Polícia Federal – A Lei é Para Todos não é um docudrama, mas em alguns de seus momentos flerta com o modelo usando imagens reais de jornais e revistas enquanto Ivan, delegado da Polícia Federal vivido por Antonio Calloni, narra detalhes que não foram possíveis de serem demonstrados de outra forma – seja porque fariam com que o filme se tornasse uma minissérie, seja porque exigiriam mais pessoas, mais locações, tornariam a edição mais difícil.

Em verdade, considerando a história contada, o diretor Marcelo Antunez merece parabéns pela edição, pela escolha do que ficou para contar a história entre a apreensão de um caminhão de palmito usado para o tráfico de drogas, que permitiu a prisão de Alberto Youssef (Roberto Berindelli), e os fatos ocorridos em março de 2016, quando as manifestações populares explodiram em várias cidades do país – como eu disse em meu título, essa história ainda está em progresso e foi necessário estabelecer um corte, os fatos ocorridos após as manifestação serão contados nos próximos dois filmes. Sim, Polícia Federal será uma trilogia.

Além de Ivan, protagonizam a história contada pelo ponto de vista dos policiais envolvidos: Julio Cesar (Bruce Gomlevsky), Bia (Flávia Alessandra), Sérgio Moro (Marcelo Serrado), Ítalo Agnelli (Rainer Cadete). Os nomes dos policiais responsáveis pelas investigações foi alterado, tanto para preservá-los como pelo fato de representarem mais de um “personagem real”, já os réus e investigados, como Lula (Ary Fontoura), foram mantidos.

Se acertou na edição, Marcelo também acertou em sua tarefa principal: ainda que algumas vezes soem didáticos, explicando excessivamente algumas descobertas, todos do elenco estão muito bem e tem química entre si, sendo que o trio Caloni, Flávia e Bruce se destaca, os momentos em que Ivan e Bia se sentem descrentes de que a operação realmente ocasione prisões – a frase “se chegar ao Supremo acabou” é real demais para não nos incomodar – geram identificação, já os momentos em que Julio Cesar se esforça para acreditar e continuar lutando ganham nossa simpatia.

A Lei é Para Todos é um thriller policial, daqueles em que o espectador acompanha os policiais encontrando provas e prendendo suspeitos, sofrendo para conseguir um mandado, mas com pegada política, como não poderia deixar de ser. O Ministério Público e Sérgio Moro aparecem, mas tem função secundária até aqui.

Ele consegue ser envolvente, mas, como já disse, algumas vezes perde ritmo por conta da narrativa, aquele momento em que ele quase vira um documentário. Que bom que estes são poucos momentos.

Assim como Real – O Plano Por Trás da História, A Lei é Para Todos provavelmente enfrentará boicotes e críticas mais políticas que técnicas. E isso é uma pena: em um país que tende a não valorizar sua própria história, que nem mesmo faz questão de conhecê-la, perdesse a oportunidade de aprender sobre ela para então tirar suas próprias conclusões. E em um país em que o cinema tem crescido em oferta de tramas, formatos e resultados de forma tão satisfatória, perde-se a oportunidade de ver história deste sendo feita.

Sim, os mais críticos encontrarão motivos para reclamação – eu estou até o momento inconformada com o fato de, em determinada cena, nenhum policial ficar no térreo de um hotel enquanto os demais sobem para prender um suspeito -, mas assistir a A Lei é Para Todos está longe de ser uma experiência decepcionante.

O filme estreia nesta feriado de 07 de Setembro – ele teve sua pré-estreia realizada na cidade de Curitiba, onde tudo começou, na semana passada, fora do cinema, enquanto isso, pilhas de dinheiro falso chamava a atenção dos passantes: com mais de quatro metros de altura, elas representam os R$ 4 bilhões recuperados em três anos da operação.

FICHA TÉCNICA

Elenco: Antônio Calloni, Flávia Alessandra, Bruce Gomlevsky, João Baldasserini, Leonardo Franco, Rainer Cadete, Adélio Lima e Samuel Toledo

Atores convidados: Ary Fontoura e Marcelo Serrado

Participação especial: Sandra Corveloni e Laura Proença

Produção: Tomislav Blazic

Direção: Marcelo Antunez

Roteiro: Gustavo Lipsztein e Thomas Stavros

Produção Executiva: Mariza Figueiredo

Fotografia: Marcelo Brasil – ABC

Arte: Dany Espinelli

Som Direto: Leandro Lima e Cristiano Maciel

Figurino: Renata Russo

Maquiagem: Luiz Gaia

Montagem: Marcelo Moraes

Música Original: Fabio Mondego, Fael Mondego e Marco Tommaso – Bandeira 8

Edição de Som e Mixagem: Ricardo Cutz – 106db

Finalização de Imagem: O2 Pós

Coprodutor: Saulo Moretzsohn

Sobre o diretor

Marcelo Antunez iniciou sua carreira no final da década de 90 como diretor de filmes publicitários para TV e cinema, alguns premiados em festivais internacionais, para as maiores agências do país. Recentemente tornou-se diretor de grandes sucessos de bilheteria do cinema nacional.

Diretor em conjunto com Roberto Santucci dos filmes Um Suburbano Sortudo (2016), comédia com Rodrigo Sant’anna; Até que a Sorte nos Separe 3 (2015), com Leandro Hassum; Qualquer Gato Vira-lata 2, sucesso de público em 2015; foi diretor assistente em O Candidato Honesto, com Leandro Hassum, sucesso em 2014; Até que a Sorte nos Separe 2 (2013), com Leandro Hassum; De Pernas para o Ar (2010). Foi produtor do filme Alucinados (2005), dirigido por Roberto Santucci.

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