Corra Simone Corra – primeiros 500 quilômetros

       “Eu serei a primeira pessoa a morrer em um filme de terror. Eu me recuso a gastar meus últimos minutos correndo.”

Essa era eu. E eu nunca achei que iria escrever um texto sobre meu primeiro ano correndo. Na verdade, pensei nele várias vezes, a cada vez que uma amiga me perguntava como eu tinha começado, todas com tanta vontade de começar a correr quanto eu tinha há exatamente um ano quando tudo começou: nenhuma.

Correção: um pouco mais de um ano, quando meu reumatologista falou que eu precisava começar alguma atividade física.

Eu achava que não, afinal eu estava longe de ser uma pessoa sedentária – meus pés são o meu meio de transporte para várias atividades diárias, se considerar pés mais transporte público cobrimos 98% dos meus percursos – e odiava qualquer tipo de atividade física. Tudo bem, eu gostava da natação na adolescência, antes de cada aula se tornar apenas a repetição de algum exercício várias vezes, e gostei de fazer pilates por um tempo.

Aos 40 anos recém completados meu médico disse que só isso não adiantava e que eu precisava fazer alguma coisa.

Academia do prédio eu não suporto, para voltar a hidroginástica ou para o pilates eu não tinha dinheiro. Do outro lado eu tinha um tênis de corrida que minha filha não usava, um iPod nano na gaveta e a rua. Uma análise rápida me provou que eu tinha todo o necessário para me tornar uma corredora de rua, faltava só a coragem.

Grudei na melhor amiga corredora e pedi conselhos, acessei vários sites, baixei planilhas de treinamentos. A meta: correr pelo menos quatro vezes por semana por pelo menos 30 minutos. Entre o muito que ouvi e li, apenas uma coisa eu acho que seja essencial: um check up médico (que eu tinha acabado de fazer).

Contratar uma assessoria esportiva? Entrar para um grupo de corrida? Ir a um parque ou quadra para correr? Essas coisas podem fazer parte da lista de outras pessoas, nada de errado com isso, mas não constavam da minha. Eu não tinha dinheiro para a assessoria; não tinha qualquer interesse em tentar um grupo depois de ver várias amigas desistindo pelo meio do caminho porque os horários e vontades das colegas nunca batiam; e se eu tivesse que pegar um carro ou o ônibus para ir a um parque eu nem começaria a treinar.

Segui o conselho da minha amiga e comecei caminhando rápido nas ruas do bairro, 30 minutos dia sim/dia não para entrar no ritmo e em 01 de setembro comecei a correr. O treino serviu, também, para que eu definisse o melhor trajeto – moro em uma região feita de subidas e descidas, SUBIDAS mesmo, e também tinha que eliminar as calçadas terríveis e cruzamentos perigosos.

A data ficou marcada, tanto que hoje resolvi dar uma olhada no Nike Run – aplicativo que uso para monitorar os treinos – e, além de confirmar meu aniversário de corredora, descobri que atingi uma marca e tanto: 500 quilômetros corridos desde então!!! Você pode não dar bola nenhuma para isso, mas eu estou bem orgulhosa de ter chegado até aqui, de não ter desistido ao longo do caminho.

Porque, olha, eu continuo não gostando de atividade física. Correr? Eu adoro a sensação de mulher maravilha que eu sinto depois de cada corrida – o tal aumento da endorfina não é mentira -, mas odeio sair para correr, odeio os primeiros minutos da corrida, odeio quando a voz do aplicativo me diz que ainda estou na metade do trajeto e sinto que estou a beira da morte.

Eu me obrigo a correr, eu coloquei na minha cabeça que é uma obrigação inescapável.

No começo eu corria somente a tarde, no verão por causa do calor eu mudei para a manhã aproveitando que acordava cedo com a Carol, nas férias escolares voltei para o final de tarde, que ainda não sou louca de acordar cedo para correr, tento correr dia sim, dia não, mas não me culpo se acabar pulando um dia por causa de um compromisso ou porque não consegui vencer a resistência – a culpa é contraproducente.

Agora fico feliz da vida quando olho para trás e vejo que diminuí meu pace médio de 11 minutos/quilômetro para 6,50 minutos/quilômetro – índice que consegui na minha última prova, a divertida The Color Run, com uma marca de 5,50 minutos no quilômetro mais rápido – ou quando penso que antes mal conseguia completar 3 quilômetros e hoje consigo correr 10.

Não, não são dez quilômetros correndo loucamente. Quando tem subida eu muitas vezes caminho rápido ao invés de correr. Mesmo quando é uma prova de rua, se eu sinto que não estou legal, reduzo o ritmo para correr de novo dali um pouco. Ao longo dos meses eu percebia, e me orgulhava, de aumentar a distância de corrida a cada treino. Nos meus planos não está atingir marcas como 5 quilômetros em 20 minutos, prefiro olhar em volta, fazer carinho nos cachorros e dar bom dia aos vizinhos.

Apenas penso que estou fazendo isso, correndo, por mim. Você já parou para pensar o quão pouco fazemos coisas simplesmente porque fazem bem para gente?

A primeira corrida de rua, na verdade, acabou acontecendo por impulso: me inscrevi na Star Wars Run com três amigas logo que comecei a treinar. Isso funcionou muito bem para mim, que não ia rasgar dinheiro não indo na prova, de 7 quilômetros, então precisava me manter treinando para participar.

Dizem que o segredo é a corrida virar um hábito. Dizem também que atividades só se tornam hábitos depois de três meses, entre a inscrição e a corrida eu tinha mais ou menos esse prazo. Era a minha cenoura na ponta da vareta. E pegar a medalha ao final foi indescritível!!

Um ano depois eu posso dizer que sim, sinto falta quando não corro. Os últimos dois meses na verdade foram complicados, tive uma pleurite e uma inflamação nos brônquios. Nos quase quinze dias de muito frio e chuva na cidade, rolou uma depressão (sou criatura solar, não tem jeito) e só consegui me obrigar a correr mesmo poucas vezes. Fui grata a cada uma dessas vezes.

Se até Drauzio Varella, que corre maratonas aos 73 anos de idade, diz que continua odiando sair para correr, quem sou eu para tentar enganá-los? Varella diz que estamos lutando contra o instinto natural de armazenar energia. Em contraponto eu afirmo: além da endorfina de final de treino, correr faz com que nos sintamos mais jovens e dispostos e isso vale a pena.

P.S. Não, não virei fitness, continuo na defesa de uma vida plena e equilibrada: leia, vá ao cinema, veja TV, coma coisas gostas, cozinhe sempre que possível, sorria, chore se achar necessário. A taça de vinho, o fondue de queijo, o chocolate, tudo isso continua na lista de prazeres que não me nego.

P.S. do P.S. Existem muitos aplicativos para monitorar os treinos, comecei usando o Nike Run porque era o disponível no iPod – morto aós uma corrida na chuva, sim eu agora sou a “louca que corre até na chuva” – e continuo usando no Android. Gosto bastante dele.

P.S. do P.S. do P.S. Se emagreci? Praticamente não, senti o rosto afinar, pernas endurecerem, troquei massa gorda por massa magra. A atividade física sozinha quase nunca significa perda de peso, a não ser para pessoas que estavam completamente sedentárias e em suas primeiras semanas de treino. Para perder peso é preciso reeducação alimentar mais exercício físico, combinados. De qualquer forma, eu estou correndo para ser mais saudável e não mais magra.

P.S. do P.S. do P.S. do P.S. MÚSICA!!! No último domingo esqueci meu fone de ouvido e fiz minha primeira prova sem música e foi uma das coisas mais sofridas da minha vida. Sou daquelas que canta junto e isso ajuda muito a passar os primeiros quilômetros mais sofridos. Recomendo muito. Eu baixei uma lista bem legal chamada Running na baia dos piratas, que dura o bastante para uma maratona, mas sei que o Spotify também tem várias playlists boas. Depois voltarei aqui falando das músicas que são as minhas favoritas, aquelas que conseguem me fazer buscar o finalzinho de energia no fundo da alma.

Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

2 Comentários


  1. Estava com saudades dos seus textos contando suas experiências pessoais. Obrigada. Parabéns ???? Run Simone run ??????

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    1. Oi Clau, eu tenho escrito pouco mesmo, a internet anda tão “violenta”, o povo se apegando em qualquer coisa para arrumar briga e eu ando evitando a fadiga 🙂

      Sim, run Simone run!!!

      Responder

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