Real – O Plano Por Trás da História traz recorte importante do Brasil

Chega hoje aos cinemas brasileiros o filme Real – O Plano por trás da História, do diretor Rodrigo Bittencourt.

Baseado no livro 3.000 dias no Bunker, do jornalista Guilherme Fiúza (também autor de Meu nome não é Johnny), o longa conta sobre os bastidores que levaram à criação do Plano Real usando como personagem central o então jovem e desconhecido economista Gustavo Franco, muito bem interpretado por Emílio Orciollo Neto – a escolha do protagonista é a mesma do livro.

É importante considerar que o filme não é um documentário, mas uma obra de ficção baseada em fatos reais. E que, abrangendo um período de dez anos, da criação do Real em 1993 à CPI do Banestado em 2003, foi preciso algumas adaptações para que o longa fugisse do didatismo e conseguisse contar uma história com começo, meio e fim. Ainda mais se considerarmos a dificuldade de tratar economia, mais ainda a concepção de um plano econômico, em um filme que não faça o espectador dormir após os primeiros dez minutos.

Como diria Aaron Sorkin, nestes casos, a função do roteirista não é a de fazer um retrato dos personagens, que seriam muitos, mas uma pintura.

A escolha de reduzir, simplificar ou, em alguns casos, deixar de fora alguns personagens históricos e, em contrapartida, introduzir alguns personagens ficcionais que contribuíssem para a fluidez da narrativa foi acertada, no meu ponto de vista.

O foco em um personagem que cresce de seu cargo de professor universitário a Presidente do Banco Central ao longo da trama consegue prender a atenção do público, afinal de contas é muito mais fácil nos identificarmos com um personagem de carne e osso do que com um plano econômico.

Outro ponto positivo do longa é o de não apresentar Gustavo Franco como um herói: ele é orgulhoso, pedante e, podemos dizer, seu caráter é questionável em algumas situações. O Gustavo de Emílio é obstinado, mas também falho.

Com tantos personagens intelectuais (Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, Pérsio Arida e o próprio Gustavo Franco), temas “filosóficos” não poderiam deixar de ser abordados: o complexo de vira-lata dos brasileiros está presente ao longo da trama, assim como o capitalismo, que é quase personificado na figura do protagonista.

Teorias econômicas, a disputa pelo poder e até o futebol são outros temas explorados – o filme fala do interessante paralelo entre a Copa do Mundo de 1994, vencida pelo Brasil, com o momento de escolha de implantação do Plano Real, ambas ocorridas em julho do mesmo ano.

Há também algumas coincidências muito bem exploradas no filme, como os elogios feitos em dado momento pelo protagonista ao Juiz Sergio Moro. Não, não se trata de um erro ou um pulo repentino na sequencia cronológica. O juiz Sergio Moro, hoje responsável pelos processos da Operação Lava Jato em Curitiba, também julgou em 2004 os envolvidos no Caso Banestado.

Claro que o filme chega aos cinemas já sendo alvo de controvérsias, a mais famosa o fato de ter sido o pivô de uma polêmica que levou ao adiamento do 21º Cine PE, evento que seria realizado entre os dias 23 e 29 deste mês no Recife, sendo rotulado como “um filme de direita”.

Dificuldades com a opinião pública em verdade não foi novidade para a equipe envolvida na produção: desde 2013, quando começou a ser feito, diretor, produtor e atores receberam reclamações até de pessoas próximas. Captar dinheiro para a execução do longa se tornou uma nova dificuldade: eles definiram não buscar dinheiro público ou de empreiteiras e tiveram que suar para encontrar outros patrocinadores que não se preocupassem o que o filme poderia fazer por sua “reputação” caso precisassem do governo.

Na realização da coletiva após a exibição do filme para a imprensa as primeiras questões foram todas sobre isso (e o público da coletiva foi diferente do que eu estou acostumado a ver, com vários jornalistas das áreas de política e economia), e o diretor Rodrigo Bittencourt sabe que ainda receberá muitas críticas.

Aos que consideram a obra de direita (ou de esquerda), ele faz um apelo: “Critiquem, mas assistam ao filme primeiro. Conheçam a história porque foi um momento muito importante para o Brasil e muitos jovens hoje não sabem o que foi isso.” Rodrigo também foi o responsável pela trilha sonora do filme, que tem uma pegada quase “punk rock”.

Já Juliano Cazarré (que no filme interpreta um político da esquerda) foi mais enfático ao comentar o ocorrido em Pernambuco: “As pessoas colocaram a ideologia acima da arte.”

A estreia em uma momento em que passamos por um novo momento controverso não foi planejada, assim que o filme ficou pronto foi definida uma data próxima para o lançamento (aqui entre nós, considerando que ele começou a ser feito em 2013, qualquer data de estreia seria em época controversa), a única condição definida por produtor e diretor é que ela não acontecesse em período próximo a uma eleição.

Nem de direita, nem de esquerda. Real – o Plano por trás da História é um bom filme e merece ser visto. Como bônus ele contribui para conhecermos um pouco mais nossa própria história, afinal de contas, não se ergue uma nação digna sem memória.

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