Cinema: A Lei da Noite

A Lei da Noite é um filme inspirado no livro Os Filhos da Noite, do escritor americano Dennis Lehane. Se em Sobre Meninos e Lobos, que virou filme em 2003 sob a direção de Clint Eastwood, Dennis explorava uma pacata vizinhança americana e os segredos horríveis que ela escondia, aqui ele explora o mundo da Lei Seca americana após o final da Primeira Grande Guerra e que tem como personagem principal um gangster que não queria ser gangster.

Este personagem, Joe Coughlin, ganha a face de Ben Affleck, que aqui não somente atua como dirige o filme e escreveu o roteiro adaptado, sua segunda parceria com Dennis Lehane – a primeira foi Medo da Verdade – que tem como cenário a cidade de Boston, onde os dois cresceram.

Lehane parece ter gostado da experiência: “Em termos criativos, o Ben e eu somos uma combinação única – que vai além de sermos ambos de Boston, embora isto seja importante. Há algo especial na estética do Ben. Sua primeira vez na cadeira do diretor foi em ‘Medo da Verdade’ e ele fez um trabalho incrível. Eu amo esse filme. Quando eu soube que ele iria adaptar Os Filhos da Noite, fiquei empolgado para trabalhar com ele novamente. Como antes, assistir a este livro se transformar nas mãos do Ben, desde o roteiro, foi muito especial”.

Joe Coughlin é o filho do subcomissário da polícia de Boston. Aquele que acabou por se tornar a ovelha negra da família ao voltar da Primeira Guerra, atormentado pelas mortes que tinha causado e com a convicção de que não existe “lado certo” ou “justiça”.

Ele escolhe por profissão os assaltos a bancos e aos jogos de azar e, claro, se apaixona pela mulher errada – no caso a namorada de um dos chefes do crime organizado local. O mesmo a quem ele evitava porque, como eu escrevi acima, ele não queria ser gangster. O problema real é que, a despeito de dizer que “não existe lado certo”, Joe não é um cara mau. Ele não é cruel, mas fez uma escolha de profissão estranha para alguém que não quer ser cruel. Joe é aquele cara que, provavelmente, teria ficado cuidando de um pequeno sítio pequeno que nunca passaria disso, vivendo seus dias de forma bastante calma até o dia de sua morte, se o cenário de sua história fosse outro.

Só que não foi. Por causa de sua paixão Joe faz sua segunda escolha errada e, ao ser traído pela mulher que acreditava amá-lo, ele acaba na cadeia. Quando sai ele conclui que terá de decidir de que lado na guerra do crime vai ficar, afinal a opção por se acertar nunca esteve tão distante e  ele não vai esquecer que o chefe de um dos lados tentou acabar com a sua vida, o que na verdade facilita a escolha de com quem ele ficará, não é mesmo?

Tentando provar seu valor, Joe deixa Boston e segue para ensolarada Tampa, onde se provará inteligente e capaz, mas ainda não mau o bastante. A cada escolha cruel que Joe faz vemos um pedaço de quem ele é sendo quebrado e é visível a dor que isso causa – e ainda que reencontre o amor e ainda que ele acredite que pode estabelecer limites para até onde irá, ele perderá vários pedaços.

Bastante criticado na mídia internacional, A Lei da Noite está longe de ser um filme completo ou um filme no qual o adjetivo “bom” seja facilmente colado. Só que, ao contrário do que se pode imaginar, seus defeitos não estão em seu protagonista – pobre Affleck, o pessoal parece ter decidido que tudo que ele estrela será ruim antes mesmo do logo da produtora aparecer, não sei se isso começou com a escolha dele para Batman ou se já existia antes.

Os defeitos do filme estão em seu roteiro, e aí a gente acaba culpando Affleck de qualquer jeito, que entrega um filme que “poderia ser ótimo”, mas não chega a ser bom… Ou melhor, um filme que poderia ter 15 minutos a menos e ser mais completo. Já imaginaram isso?

A base do roteiro é boa, a história de Joe é boa, ele é aquele anti-herói cuja redenção nós torcemos que aconteça. Ao mesmo tempo ele exibe cenas em que o “lado ruim” de Joe nos agrada, quando o seu lado ruim funciona para eliminar os piores. E neste momento você se sente assistindo a um bom filme sobre a máfia, daqueles que eram produzidos há décadas. Neste momento é como se A Lei da Noite fosse uma homenagem a este universo de histórias.

Só que, no restante do tempo, Affleck parece ter a intenção de falar sobre moral, sobre bem e mal, sobre religião versus vida real, sobre amor e ilusão e tem tanto assunto que o filme acaba não sendo sobre nenhum deles. Ao optar por usar uma narrativa mais complexa e dedicar tempo as cenas de ação de mocinho e bandido Affleck fica nos devendo dos dois. Eu, particularmente, cortaria os tais 15 minutos que citei da parte da narrativa e ficaria com um bom filme de gangster, mas isso é preferência pessoal.

No aspecto narrativo vamos esbarrar mais de uma vez nos dilemas morais do personagem. E mais de uma vez na questão de até onde ele deve ou não deve ir. Vamos, ainda, esbarrar no efeito dessas decisões todas sobre a cidade em que ele vive e sobre as pessoas com que convive. O amor é capaz de redimir tudo? E é possível deixar o passado de bandido para trás e simplesmente recomeçar? Também estas questões está lá.

As muitas questões em aberto e a sensação, em vários momentos, de que existe uma ótima história ali talvez sejam os maiores responsável pelo sentimento de frustração ao final do filme. Por esta dificuldade em simplesmente responder “é um bom filme” quando alguém perguntar a você o que você achou.

A Lei da Noite é um bom filme em muitos aspectos – fotografia, atuação, cenas de ação, trilha sonora, elenco escolhido, dramas pessoais – mas peca ao reuni-los. Talvez este ainda não fosse o momento para que ele fosse feito, esse é o meu sentimento reinante, como se alguns anos mais pudessem torna-lo mais maduro e mais conciso.

A Lei da Noite é produzido por Leonardo DiCaprio (O Lobo de Wall Street, Tudo Por Justiça) e Jennifer Davisson (Tudo pelo Poder, A Orfã), sob a bandeira da Appian Way; e por Ben Affleck e Jennifer Todd (Alice no País das Maravilhas, Across the Universe), com a Pearl Street Films. Chris Brigham, Dennis Lehane e Chay Carter são os produtores executivos.

O elenco traz, além de Affleck, Elle Fanning (Malévola), Brendan Gleeson (No Coração do Mar, Harry Potter), Chris Messina (Argo), Sienna Miller (Sniper Americano, Foxcatcher), Zoe Saldana (Os Guardiões da Galáxia, Avatar) e o vencedor do Oscar Chris Cooper (Adaptação, Atração Perigosa).

Na equipe de produção, Affleck contou com a colaboração do diretor de fotografia três vezes vencedor do Oscar Robert Richardson (JFK – A Pergunta que não Quer Calar, O Aviador, A Invenção de Hugo Cabret); do designer de produção indicado ao Oscar Jess Gonchor (Bravura Indômita, Foxcatcher); do editor vencedor do Oscar William Goldenberg (Argo); e da figurinista indicada ao Oscar, Jacqueline West (O Curioso Caso de Benjamin Butler, Argo). A trilha sonora foi composta por Harry Gregson-Williams (Perdido em Marte, Medo da Verdade).

Uma produção da Warner Bros. Pictures e da Appian Way/Pearl Street, A Lei da Noite estreia nesta quinta 23 de fevereiro de 2017 no Brasil e será distribuído internacionalmente pela Warner Bros. Pictures, empresa da Warner Bros. Entertainment.

Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *