A babá, a ovelha e a incapacidade das pessoas de lidarem com o outro

Confesso: escrevo cada vez menos aqui porque me sinto extremamente cansada. Todos tem opiniões especializadas sobre qualquer coisa e eu sou apenas uma amadora, alguém que gosta de conversar sobre o programa que passou na televisão ou sobre o livro que leu, até mesmo sobre política, desde que de forma civilizada. Que acha que vez ou outra falar de uma experiência pessoal pode ajudar outra pessoa com problema semelhante ou quem sabe até ajudar a mim mesma, quando alguém me contar que não sou a única.

Domingo eu já tinha ido dormir um tanto “desgostosa” por conta da repetição da história da foto da babá na manifestação no Rio de Janeiro. Enquanto amiguinha falava que é vergonhoso um casal de pais precisar de uma babá no final de semana, outros repetiam a exaustão o quanto isso repete o padrão do passado escravagista do país – sim, racismo existe, assim como privilégios, não estou negando isso.

Eu olhava e pensava: sei lá eu das limitações ou preocupações dos pais das crianças para saber porque eles tem uma babá. Mesmo que tenham porque podem, tem algo de errado? O que eu acredito de verdade é que na maioria das vezes, quase todos mesmo, os pais apenas estão tentando fazer o melhor que podem por seus filhos.

O fato de eu não ter tido babá não me faz melhor que eles. O fato de eu mesma limpar meu banheiro não me torna melhor que ninguém.

Aquela foto era um recorte, usado por alguns para reafirmar sua posição e eu nem me importaria muito, não fosse o fato de nenhum deles realmente ter pensado na babá ou no que a exposição de sua foto por todo lado poderia fazer com sua vida. Menos mal que ela parece mais consciente das coisas que a maioria e sobre o assunto fico mesmo com este texto do Pedro Doria.

Mal sabia eu que a segunda seria ainda mais estranha: depois de passar o dia trabalhando e praticamente desconectada, vi as redes sociais em polvorosa por causa de um programa de culinária – polvorosa ainda maior do que no dia em que Bela Gil fez seu churrasco de melancia, imaginem.

Eu não assisto o programa em questão, não gosto, mas sei que ele é queridinho de muitos. Ou era, já que o apresentador, Rodrigo Hilbert, resolveu cometer o crime de mostrar as pessoas que a carne não nasce embalada em plástico filme na companhia de bandejas de isopor e matou uma ovelha.

Não vi a cena, não sei se foi da mau gosto ou não. Acho que talvez valesse um aviso antes de que seriam exibidas cenas inadequadas para pessoas sensíveis – vai que o alerta até existiu, mas o povo ignorou, às vezes eu acho que tem gente que apenas procura motivo para poder falar. Só sei que matar animais se faz necessário para que possamos comer carne.

Eu amo animais, sempre acreditei que eles tem alma – ao que parece estudos recentes confirmaram a minha crença -, mas eu os como. Sou onívora e hoje não me vejo deixando de consumir carne por nenhum motivo. Não critico quem o faz, seja por amor aos bichinhos seja por acreditar que a alimentação vegetariana é mais saudável. Cada um no seu quadrado – ainda usam essa expressão ou estou ficando cansada e velha?

Não como carne todos os dias, tento ter uma alimentação equilibrada, sei que a pegada de carbono da carne é maior que a dos vegetais, apoio campanhas como a Segunda sem carne – apesar de minhas segundas quase sempre terem carne porque comemos o que sobrou do domingo e entre aproveitar os restos e fazer comida novinha, fico com a primeira opção.

Minha mãe cresceu vendo a sua mãe matar galinhas e porcos, meu avô fazendo linguiça e queijo sendo feito de leite de cabra que saía mais barato, a cabra estava ali mesmo – coisa doida pensar que hoje um pedacinho de nada de queijo de cabra é uma pequena fortuna.

Eu cresci longe disso, mas aprendendo que se um animal morre para matar a nossa fome, devemos honrá-lo. Toda carne deve ser aproveitada, seu couro também. Nunca fiz cara feia para carne de segunda e admiro fortemente os pratos, brasileiros ou não, criados no passado justamente para aproveitar tudo que o animal nos oferece.

Pois bem, ao que parece saber que ovelhas morrem para que uma família tenha carne assustou boa parte dos fãs do programa e as redes sociais foram invadidas por ódio de todo tipo: Rodrigo virou a pior pessoa do mundo, seus filhos foram ameaçados, as fanpages do GNT e do apresentador foram invadidas por comentários – e com certeza a maioria precisava de mais censura que o programa do cara – e ele encerrou seu dia pedindo desculpas e editando o programa para retirar as cenas.

Eu sinceramente esperava mais das pessoas. Ainda. Eu sei, sou tola.

Um dos programas de culinária que mais amo na TV é o do apresentador inglês Nigel Slater. Ele nunca matou nada, mas ensina sobre você aproveitar tudo mesmo na cozinha. Na Netflix me apaixonei por Chef’s Table e Cooked, o primeiro mostra diferentes chefs de cozinha ao redor do mundo falando sobre suas influencias e sua comida e em alguns episódios existem cenas de morte e aproveitamento de animais – na segunda temporada teremos o brasileiro Alex Atala.

Já em Cooked, o jornalista Michael Pollan fala sobre o lado da comida que muitas vezes esquecemos: o que de verdade é comida processada, o que é esse processo louco que transforma isso estranho em aquilo que temos a mesa. Não é uma série sobre gastronomia, mas sobre alimento. E ela também tem cenas não indicadas para organismos mais sensíveis.

Em pegada bem mais leve, a temporada de verão do Cozinha Prática da Rita Lobo, no mesmo GNT que o programa do Rodrigo e que eu adoro, falou sobre o que é alimento e o que não é e da comunhão que é essa coisa de cozinhar para si, para os outros, e saborear mais que o gosto da comida.

Bom, divaguei – ainda bem que aqui é um blog, lugar adequado para textões.

A questão é que o que o Rodrigo Hilbert mostrou ainda é muito menos cruel que a enorme indústria que garante a bandeja de isopor e papel filme que a maioria de nós carrega para casa. E não deveria nos assustar, muito menos revoltar. A não ser que você seja hipócrita.

E aí eu te digo para ler este texto aqui da minha amiga Priscila Darre.

O homem, todos os dias, toma milhões de decisões e boa parte delas afeta o ambiente em que vivemos. Comer carne é mais uma delas e estando conscientes disso a chance de fazermos melhor aumenta.

Recomendo, ainda, que assistam ao documentário The Truth About Meat do BBC Earth, exibido há alguns meses aqui no Brasil. Ele está disponível no You Tube integralmente com legendas em inglês. Uma das maiores surpresas que tive com o documentário foi aprender que, por mais que seja menos cruel, a criação de animais de forma livre, em grandes pastos não seria suficiente para alimentar o mundo e, vejam vocês, traria muito mais efeitos negativos para o meio ambiente que a criação confinada.

Lá pela metade do documentário – por volta de 25minutos – ele também explica o efeito no ambiente para cada um dos tipos de carne que escolhemos, a relação entre a quantidade de carne e proteína e a pegada de carbono gerada.

De novo: conhecer o que se come e como é feito parece ser a forma mais eficaz de tomar melhores decisões. E se assustar menor quando um novo estudo médico fala que você não pode mais comer bacon – pode sim, mas não todo dia, dando preferência para pequenos produtores que farão um bacon limpo de aditivos, mais saboroso e saudável. Nem mesmo a salsicha de cor estranha que faz nosso melhor cachorro quente é uma vilã em si mesma, desde que você saiba que ela é altamente processada e que não pode ser consumida todos os dias em todas as refeições.

Para quem tem estômago fraco, aconselho uma olhada no filme Temple Grandin. A mulher que dá nome ao filme, focado em sua vida, foi uma das primeiras vozes na grande indústria da carne sobre melhorar os processos não pensando em mais produção, mas em menos crueldade.

Acho que a grande questão aqui é: não preciso aprovar a morte de animais, e neste caso devo escolher não me alimentar deles, mas não posso tapar o sol com a peneira, fingir que não sei que aquele bife no meu prato era um ser vivo e fazer escândalo porque um apresentador de TV resolveu mostrar como isso é feito. Fingir que não houve morte no processo que lhe garantiu a proteína do dia não faz com que ela deixe de existir, só te torna uma pessoa pior.

Ah, e mesmo que você seja uma pessoa horrível, segure o dedo na hora de digitar e poupe o resto da população de ler seu ódio.

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3 comentários em “A babá, a ovelha e a incapacidade das pessoas de lidarem com o outro”

  1. Marcia Bock Belloube
    Marcia Bock Belloube 15/03/2016 em 9:51 am

    Parabéns! Texto excelente. Sim, as pessoas esquecem como as carnes vão parar no mercado embaladas. E sem contar que tudo é motivo para estardalhaço.

  2. Lara Lima
    Lara Lima 15/03/2016 em 4:26 pm

    Oi Si!

    Olha, eu acho muita coisa a respeito disso tudo. E ao mesmo tempo não devia achar nada porque eu não sou a babá da manifestação e eu também não vejo o programa do Rodrigo, mas vamos lá.

    No caso da babá há muita coisa envolvida: 1. Me incomodou o fato das pessoas falarem por ela sem ao menos saber o por quê dela estar lá. E me incomoda a exposição da foto dela e dessa família, só que isso é um problema do século da tecnologia em que vivemos.
    2. Eu também acho que a patroa está carregando um cachorro na manifestação e a empregada está carregando os filhos dela. Foge a minha compreensão quem leva bebê/criança pequena pra uma manifestação dessa, só que cada um educa da forma que quer. Porém, por que a babá não foi com os próprios filhos e familiares se manifestar contra o governo? Eu só consigo enxergar a diferença entre a patroa branca que pode levar a babá pra manifestação e a patroa negra que tá indo pra cuidar dos filhos da patroa branca. Inclusive o patrão fez questão de dizer que ele paga os direitos trabalhistas dela, como se isso fosse um favor e não a obrigação dele já que ela lhe presta um serviço.
    3. Não concordo quando dizem que ela não tem motivo pra reclamar do governo e que talvez não estaria lá se pudesse escolher. Ela tem motivo sim. Acho até que quem votou na Dilma não consegue defender o governo a essa altura. Só que não se trata disso. De ter motivo pra reclamar ou não.
    4. A foto representa sim e muita coisa. Representa que ainda somos o país da casa grande e senzala. E se eu, como negra, estou dizendo, quem é branco deveria ao menos ouvir. Quem tem mais propriedade pra falar o que é racismo, falta de oportunidade, o que é viver nessa hipocrisia de que “todos somos iguais” é o negro. Ou melhor, neste caso aí, é a babá. Mas talvez a babá nem tenha consciência do que significa ela ser a empregada e não a patroa. Como muitas vítimas de relacionamento abusivo não tem consciência de estarem em um relacionamento abusivo, por exemplo. Eu fui a um casamento com os meus pais uma vez, meu pai se levantou pra se servir do bufê e uma convidada dos noivos o chamou com um assovio e pediu que ele a servisse com um pedaço de bolo. Ele chamou o garçom, fez o pedido da mulher, e depois retornou pra mesa e me disse: “não entendi agora, minha filha. Aquela mulher achou que eu fosse o garçom e pediu um pedaço de bolo.” Ele não tinha percebido que ela estava sendo racista. Que ele, o único negro da festa além de mim, só podia ser garçom, não podia ser convidado. Eu não quero falar pela babá. Até porque ela já deu a resposta dela e fim de conversa. Mas não vamos nos enganar dizendo que porque não vivemos a escravidão é que não existe uma e que é super normal negros sempre servindo (seguranças negros, babás negras, etc) e brancos sendo patrão. Normal só se for no sentido de que é isso o que realmente acontece, mas não deveria ser assim.

    Sobre o Rodrigo, é muito simples. Quem não quer consumir carne por qualquer motivo tem o direito de. Mas não tem o direito de impedir que outros consumam. Eu fiquei bastante decepcionada com o Rodrigo por ter se desculpado. Não acho que ele devia um pedido de desculpas e muito menos reeditar o episódio (porque a proposta dessa temporada era clara: ele mostraria todos as etapas até o alimento chegar na mesa, inclusive o abate). Quando você diz/faz algo e depois pede desculpas e atende prontamente sem analisar que as pessoas estão sendo intolerantes, você corre o risco de ficar preso a essas pessoas. Talvez apenas um aviso antes do episódio seria o suficiente. Mas pedir desculpas achei demais porque ele não fez nada de errado. E quem se sentiu ofendido tinha a opção de desligar a televisão.

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