Selfie e o meu apego pelas séries com doçura inclusa

Dar um salto de confiança. Arriscar-se, ainda que o resultado possa lhe machucar. Tentar, esquecendo o que deu errado antes. Recomeçar, se reinventar, confiar de novo. Selfie era sobre isso, com alguns momentos simplesmente hilários, mas pouca gente viu.

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E eu nem posso criticá-los, enrolei até para dar uma chance para a série e só dei porque tinha a Karen Gillan. E, sim, sua Eliza era um tanto estranha nos primeiros episódios, exagerada mesmo.

Só que depois você percebe que até isso estava certo em ser deste modo, afinal, quando a gente foge de algo que realmente nos assusta podemos ser bem exagerados.

Porque Eliza é aquela da escola de quem ninguém se lembra quando fica adulto, ainda que tenha aproveitado os tempos de escola para lhe dar um apelido feio, cortar seu cabelo, fazer com que ela passasse vergonha. Ela era gordinha, usava óculos e aparelho e não fazia parte do grupo de candidatas à rainha do baile.

Só que ela não virou uma história de terror como Carrie, ela se reinventou e apagou tudo que era. Ela passa quatro horas entre produtos de beleza antes de sair de casa. Ela é falante, engraçada e uma celebridade no Instagram. Afinal, nas redes sociais ninguém se aproxima o bastante para poder te magoar.

Pelo menos até passar vergonha em um avião e lembrar-se de como era ser aquela de quem só lembram se fora para tirar um sarro. Selfie começa aqui, quando Eliza, em pânico e mais exagerada que nunca, quer mudar sua imagem e tropeça no Henry de gravata borboleta e, na verdade, totalmente parecido com ela.

Henry, acho eu, provavelmente não foi motivo de brincadeiras na escola, mas isso porque ninguém prestava atenção o bastante nisso. Henry fez uma escolha parecida com a da Eliza, mas diferente. Enquanto ela se preparou para ser vista, ele continua na busca de passar apenas como plateia.

E, por mais clichê que seja, juntar o menino tímido de roupas séries e a garota que usar roupas para chamar a atenção foi obra do destino. E, poxa, o destino sabe o que faz – nem sempre, mas com certeza vez ou outra.

Ao longo de seus poucos treze episódios acontece tudo aquilo que a gente sabe que vai acontece: Henry e Eliza se apaixonam, mas fingem não perceber, e modificam um ao outro. O Henry que termina a série é mais alegre e solto, a Eliza que termina o décimo terceiro episódio entende que não precisa passar as quatro horas em frente ao espelho e que, bem, não tem nada demais usar óculos ao invés de lentes de contato.

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E não é somente isso: os personagens secundários, sem noção, cheios de manias, são todos adoráveis. Joan e seu conselho para a vida – papel higiênico nunca é demais; a querida Charmonique e sua filosofia de vida – e sua falta de noção em imaginar que comer nuggets todas as noites pode fazer mal para uma criança; Sam, o chefe que todo mundo quer ter (e que fica perfeito no karaokê).

A gente pode até olhar e pensar que ninguém a nossa volta é tão louco assim. Mas não é mesmo?

E, mais importante, a doçura de cada episódio. Não tem jeito, acho que é um protesto meu ao tanto de falta de gentileza e aproximação do mundo de hoje: o que me encanta é a doçura.

É ver Henry realmente querendo ajudar Eliza, antes mesmo de estar apaixonado, é ver Eliza mostrando seu lado doce escondido em tanta inconsequência, é ver Sam tentando se aproximar do genro, mesmo que ele não goste dele, é ver as vizinhas doidas da Eliza lhe vestindo de princesa para ir a um casamento, é ver bondade.

Me despedi de Selfie em seu último episódio com um tantinho de tristeza porque não vou mais poder chegar quarta, bem no meio da semana, aquele dia em que precisamos de uma ajuda para recuperar parte da energia já gasta e conseguir chegar até sexta, e dar algumas risadas enquanto fico encantada com a lição de moral ao final de cada episódio.

Não, Eliza e Henry não ficaram juntos – e eu nem sei se pessoas que se aproximam da forma e no momento em que os dois se aproximaram tem chance real de depois ficarem juntos – mas Eliza agora realmente entende que ela tem valor e que não precisa de excesso de maquiagem e saias curtíssimas para que a enxerguem.

E Henry tem um novo mantra – No Fear – escrito no gesso do braço quebrado na pista de skate. Porque ele deu o salto de confiança.

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Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

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