A Blogosfera morreu, viva a blogosfera – um texto sobre um texto sobre um texto

Começou assim: a Lu Freitas fez um texto sobre um texto da Bia Granja, as duas falando sobre os blogueiros profissionais, o fim da blogosfera e a substituição dos velhos blogs por vídeos no You Tube – uai, outro dia eu tinha lido um texto de alguém falando que o You Tube não dava mais dinheiro! -, Vine, Instagram e Facebook.

Aí é claro que eu lembrei da Zel falando no Facebook de sua irritação com os vídeos de receita se proliferando nos blogs de cozinha. Eu, como a Zel, odeio explicação em vídeo. Na verdade eu assisto só vídeo bonitinho de cães e gatos, trailler de filme e, mais raramente, algum desses que tem por finalidade te fazer pensar na vida (ainda que não saibam disso).

Vídeo não é a minha praia, nem fazer, nem assistir, mas não vou entrar aqui no mérito de que o povo está cada vez mais preguiçoso e que acha muito mais fácil fazer um vídeo papum do que ter o trabalho de escrever um texto legal, claro, conciso. Não acho que seja só por aí, apenas que a onda da vez é essa e que os jovens estão nela, como sempre estão em qualquer onda.

Eu nunca fui blogueira profissional. O Só Seriados de TV está entrando em seu décimo ano – vishhhh! – e tem uma audiência que eu considero legal, mas ele nunca foi feito para ganhar dinheiro. Se eu ganhasse, opa, que bom, mas ele foi feito para compartilhar minha opinião sobre as séries que eu gostava e acabou atraindo para o “meu mundo/minha blogosfera” gente que também queria falar disso.

Esse aqui sempre foi um diário pessoal, variando de assuntos conforme meus interesses variavam – única vez que me verão citar algo astrológico, momento histórico, mas sou geminiana e me torno especialista em vários assuntos seguidamente – e assim continua.

Muito provavelmente se eu tivesse mudado qualquer um dos dois eu teria ganhado mais dinheiro, teria virado um negócio. Mas aí vem justamente um dos pontos citados pela Bia em seu texto: os blogs tiraram dos grandes portais, da grande mídia, o poder sobre a informação. Com a vantagem de que ela vinha de forma pessoal, com opinião.

Acho eu, daqui do meu sofá, que parte dos blogs se perdeu aí, porque ao mudar para virar um negócio perderam justamente o que tinham de mais interessante, sua personalidade – porque se é para ler a mesma notícia internacional traduzida ou ver o mesmo vídeo que se tornou viral, que isso venha com algo diferente dos outros mil blogs fazendo o mesmo.

Outros acho que se perderam com o fim do Google Reader. Não, não porque o Google Reader os matou, mas porque ao acharem que ninguém ia buscar um substituto para a ferramenta do Google abandonaram seus feeds ao léu, isso quando têm feeds, e sumiram no anonimato para pessoas que os levaram para outras ferramentas como o Feedly.

E outros, bem, não morreram, apenas deixaram de ser atualizados. Porque as pessoas seguiram em frente, descobriram outros interesses, nem sempre porque no You Tube estava o dinheiro, mas porque aquilo que os motivava a escrever deixou de existir – e confesso visitar um ou outro até hoje, mesmo sem atualização, de tanto que eu gostava.

Mas, para mim, a grande questão é que muitos, muitos mesmo, não morreram e continuam sendo importantes, seus autores “celebridades”. Só que para o mundo de algumas pessoas, para a blogosfera de algumas pessoas.

Isso foi algo que eu já defendia lá atrás, mesmo quando se falava desses blogs de milhões de acessos como o Não Salvo (nunca entrei) ou celebridades da internet como as irmãs Bottam (escrevi certo? lembro de ouvir o nome, mas nunca as conheci) ou a Tessália (só fui descobrir quem era quando apareceu na Globo).

Não estou de forma alguma desprezando o sucesso destas pessoas, por favor, quero apenas dizer que ainda que um blog tenha milhões de visitas mensais, ainda existirão milhões de pessoas que não o conhecerão, que clicarão no link do blog ao lado e que não fazem a mínima ideia do que estamos falando.

Por exemplo: a Bia Granja, do texto que gerou o texto que gerou este texto. Ela sempre foi um nome que eu associei ao YouPix, ao qual fui apresentada pela Samantha Shiraishi. Pronto, acabou o meu conhecimento. Eu imagino que ela também tenha, ou teve, seu blog, e que um dia despontou na internet por seus méritos, que tem muita gente que sabe tudo que ela fez, mas é provável que, se eu perguntar para a primeira pessoa que aparecer no meu Messenger sobre ela, esta não a conheça. Assim como pode ser que quem a conheça não conheça a Sam e muito menos a mim.

A internet ironicamente nos dá a impressão de que o mundo ficou menor, mas na verdade ela apenas ampliou o pequeno grupo de pessoas com quem nos relacionamos, mas sempre teremos pessoas que não conhecemos, mesmo elas sendo tremendamente famosas para outros, e sempre teremos blogs que nunca visitamos.

A blogueira mais famosa de moda para minha vizinha de prédio pode ser uma moça sobre a qual eu nunca ouvi falar e a única que eu sigo no meu Feedly pode ser alguém que ela nunca viu mais magra.

O blogueiro que escreve as crônicas que eu mais gosto e cujos links estou sempre compartilhando em meu twitter é um ilustre desconhecido para o pai da melhor amiga da minha filha, mas acaba também sendo bem conhecido dentro de meu círculo de amigos online, isso porque eu e ele estamos no meu “submundo” dentro de um mundo bem maior que é a rede toda – as várias blogosferas de que a Lu falou em seu texto.

O texto da Lu mostra mais disso, de que o fato de eu não ter ouvido falar de alguém não significa que ele não produza mais nada – você nunca mais acessou, pelos mais diversos motivos, o blog mudou de endereço, o assunto nao te interessa mais, mas não, a pessoa não morreu.

E por que eu estou aqui escrevendo tudo isso? Porque se tem algo que eu sempre adorei na “blogosfera” é quando um texto gera um texto que gera outro texto e que nos apresenta novas pessoas interessantes pelo caminho.

A blogosfera morreu? Viva a blogosfera!

taxi-drive-clap

 P.S. Outro texto bom sobre o assunto que você precisa ler tá aqui. Ah, e tem o do Rodrigo também.

P.S. do P.S. A Lu falou sobre os corações ingratos.

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9 comentários em “A Blogosfera morreu, viva a blogosfera – um texto sobre um texto sobre um texto”

  1. Nós somos a resistência » Tecnocracia

    […] Simone Miletic, no Smiletic […]

  2. Lu Monte
    Lu Monte 06/02/2015 em 8:04 am

    Si, nem tive paciência pra ler os textos sobre a morte da blogosfera – o único que li foi o seu, porque costumo ter uma visão de mundo parecida com a tua, e esse texto confirmou isso mais uma vez.

    Eu quase não escrevo mais nos meus blogs – pura falta de tempo, não desinteresse -, mas não deixei de ler os blogueiros que fazem parte da *minha* blogosfera, como você bem colocou. São importantes pra mim, são interessantes pra mim, fazem parte da minha rotina. Estão lá, no feedly, que visito quase todos os dias (ou, na pior das hipóteses, uma vez por semana). Aliás, de novo você tem razão ao falar sobre o descaso dos blogueiros com os feeds após o fim do Google Reader (esses eu parei de acompanhar).

    Talvez a gente tenha outra visão justamente porque não buscou grana com os blogs, porque começou a blogar há dez anos ou mais, quando a blogosfera era um grande fundão da sala de aula.

    De lá pra cá, já até perdi a conta de quantas vezes decretaram a morte dos blogs. E cá estamos nós, e nossos blogueiros.

  3. deniserangel
    deniserangel 07/02/2015 em 7:58 am

    Exatamente. Estamos há dez anos blogando. Cada um tem a blogosfera que elegeu.
    Beijo, menina

  4. Lucia Freitas
    Lucia Freitas 09/02/2015 em 2:09 pm

    E viva a CPBR me tirando da leitura e eu cheguei tarde aqui! :/
    Mandou bem, Si. Porque não fazemos conteúdo pela eventual grana que ele possa render!
    E, sim, quem tá na ondado dinheiro se “profissionalizou” e deixou a opinião de lado. Eu continuo a amar ler opiniões.
    Em tempo: a “ferramenta” está mais popular que nunca, que o diga o volume de tentativa de invasão em todos os wp instalados que conheço. A necessidade de “medidas de segurança” permanentes está aí dizendo que blogs estão vivos – e agora são alvo até dos malfeitores.
    beijo

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