Meus dias sem carro

euAcordei as seis e meia e tem todo aquele esporte de tirar filha quase-pré-adolescente da cama, é um tal de sacode, sai do quarto e arruma a mesa do café, volta, sacode, vai trocar de roupa, volta sacode e expulsa da cama. Saímos as três, eu, filha e cã para a escola as sete e vinte. Daqui até a escola são 280 metros. Eu e a cã ainda voltamos pela rua de trás, o que me permite passar na padaria e trazer o pão.

Após tomar o café eu sento em frente ao computador, a manhã é para responder emails, pagar contas, escrever para os blogs, trabalhar a contabilidade dos clientes.

Pouco antes do almoço eu saio de novo com a cã, agora para buscar a filha. Almoço, fazer arrumar a cama, conversa, briga, risada. Pouco depois do almoço é a vez de caminhar até o Kumon, quinhentos metros. Como ele é perto do mercado, armarinho, banco, acabo resolvendo uma e outra coisa. Às vezes passa a uma hora da aula, às vezes não e eu volto pra casa, neste segundo caso pouco depois eu e a cã subimos para buscar a Carol, passamos na padaria pra comprar um brigadeiro, mais conversa.

E aí tem lição de casa pra fazer e costura para terminar. Dia de trabalho em casa eu tento terminar até as cinco, assim sobra um tempinho para levar a cã para o último passeio, esse mais longo, mais ou menos um quilometro.

Tem dia em que eu vou para o escritório, então depois de deixar a Carol eu pego um ônibus, ele me leva até a Paulista enquanto eu leio um livro. Tem dia em que eu vou até a 25 de março, pego o mesmo ônibus e depois o metrô.

Tem dia em que eu levo a Carol ao psicólogo e aí eu uso o carro. É um tanto fora de mão para o transporte público, Carol não gosta de táxi, e se bobear levamos mais tempo indo e vindo do que no consultório. No dia da minha psicóloga tem vezes que eu vou de bicicleta, tem dias em que vou de ônibus, tem dias em que eu vou passar em algum outro lugar e eu vou de carro.

Há doze anos atrás eu vendi meu carro. Desde então vivemos com um carro só. Antes o marido o usava para o trabalho, hoje ele vai de ônibus, que pelos corredores vai mais rápido. O carro fica então para os dias de muita chuva, de muito cansaço, para as viagens de final de semana.

Assim como o refrigerante e o brigadeiro não são vilões de uma vida saudável, o carro em si não é ruim. Ele ajuda muito que trabalha longe – meu irmão mora em Guarulhos, trabalha na zona sul de São Paulo, vida que levei por muito tempo – ele ajuda as famílias grandes, ele ajuda nas emergências.

Só que, vamos combinar, anda difícil escolher ficar só com ele, não é mesmo? O trânsito anda cada vez pior, são horas de estresse e sofrimento. A paisagem parada, a poluição que coça o nariz e os olhos.

Quinta passada, chegando a psicóloga, mandei no twitter: “nunca vi tanto ciclista de manhã, construa e eles virão”. Sábado retuitei outra: “as ciclovias não estão vazias, é que o ciclista já passou, quem fica parado é carro”.

Eu deixei de usar a bicicleta algumas vezes por conta de caminhos inseguros – a primeira fechada do ônibus você nunca esquece; nem a segunda, nem a terceira… – e sempre achei que as ciclovias eram a forma mais rápida de incentivar o uso da bicicleta, afinal a parte da educação dos motoristas ainda vai demorar para mudar.

E não falo que deixar de usar o carro é fácil, apenas que hoje em dia é mais fácil do que insistir em usá-lo.

Além disso, a solução para o trânsito virá de um mix de atitudes: tem que ter gente a pé, de bicicleta, de ônibus, de metrô, de carro. Tem que ter gente fazendo de melhor forma o seu caminho e respeitando do caminho do outro.

O Dia Mundial Sem Carro é apenas uma forma de lembrar que existem alternativas e incentivar todo mundo a procurá-las. Vai que você descobre que de ônibus você vai mais rápido e ainda lê um livro?

E pra lembrar também que você não é o seu carro, que a armadura não vai te proteger dos perigos do mundo moderno, que uma rua com pessoas é mais segura que uma rua com carros, que o seu bairro pode esconder preciosos tesouros e que aquela rua em que você nunca passou porque é contramão, mas que você pode usar se estiver a pé, tem aquele café com seu doce favorito para uma pausa na correria.

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Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

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