A maldade é menor do que aparece na tevê?

 diários de bicicleta david byrne

Quando li Diários de Bicicleta, do David Byrne, uma questão que ficou bastante clara em minha cabeça foi a relação entre ocupação das ruas e a segurança delas. David cita diversos exemplos que demonstram que a construção de edificações cada vez mais “seguras” e a diminuição de pessoas caminhando ou pedalando nas calçadas é que acabam por tornar os espaços públicos mais inseguros, bem ao contrário do que a maioria das pessoas poderia julgar.

Os prédios de antigamente, com suas lojas e serviços no térreo e moradia a partir do primeiro andar, o comércio de rua, as praças e parques, tudo isso aumentava o número de pessoas nas ruas em diferentes horários e acabava por inibir o comportamento mal intencionado, como se todos fossem responsáveis pela segurança de todos. Essa é a impressão geral de David depois de ter pedalado por cidades das mais diversas e se sentir muito mais inseguro nas grandes avenidas de Los Angeles, nas quais você pode passar horas sem encontrar outro ser vivo que não esteja em um carro, do que pelos bairros de pior fama em Nova Iorque, com crianças ainda brincando em calçadas e adolescentes sentados em escadarias dos sobrados.

É claro que não é tão simples ter respostas questão da segurança, acho que o grande problema é que vivemos no eterno “enigma de Tostines”: as ruas se tornaram inseguras porque as pessoas se trancaram em condomínios e shoppings ou as pessoas se trancaram em condomínios e shoppings porque as ruas se tornaram inseguras? Mas acho que uma observação diferente sobre o que ocorre a nossa volta pode nos mostrar que elas são menos inseguras do que nos parece no jornal da noite – ainda que imagem seja tudo num mundo de tanta informação.

Acredito que, assim como a bicicleta não se tornará o veículo de todos de uma hora para outra – não acho que seja a solução para todos os tipos de pessoas ou caminhos -, demoraremos a tomar as ruas como nossas novamente, a perder o medo. Só que também acredito que um “retorno” seja parte parte da evolução quando chegamos num ponto em que a sobrevivência se torna cada vez mais difícil.

“Quando uma população saturada pelas imagens da tevê começa a agir como se a realidade televisiva fosse real e passa a se comportar dessa forma – reagindo, segundo a hipótese de George Gerbner, com medo e suspeita a um mundo visto como um lugar povoado em maior parte por traficantes e golpistas – o mundo real acaba se ajustando para se enquadrar nessa ficção. A verdade é que existem sim elementos como policiais, traficantes, prostitutas baratas e pessoas bonitas com comentários sagazes e espirituosos na ponta da língua. Esses estereótipos não são totalmente inventados. A existência de todos pode ser confirmada. Apenas não nas mesmas proporções vistas no mundo da tevê.” – Diários de Bicicleta, David Byrne, capítulo sobre Londres

Lembro quando comentei com minha terapeuta sobre os casos da série Sessão de Terapia e como eles eram pesados e aflitivos em comparação aos dramas que eu dividia com ela e ela me respondeu que crises simples em casamentos ou dúvidas sobre troca de emprego não atraem a atenção do grande público. Acho que a tevê, ao mostrar tanta violência e casos tão sórdidos o faz em busca de audiência, o problema é que o efeito é mais negativo que positivo e voltamos ao ciclo vicioso que eu citei acima, tornando as pessoas ainda mais assustadas e abrindo mais espaço para quem pratica a maldade.

Nos trancamos em busca de segurança e tornamos o mundo lá fora cada vez mais selvagem?

P.S. O pessoal do Vá de Bike fez esse vídeo muito legal sobre as intervenções que vem sido realizadas no Largo da Batata justamente para resgatar o uso do espaço público, dá só uma olhadinha:

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2 comentários em “A maldade é menor do que aparece na tevê?”

  1. Thaty
    Thaty 10/07/2014 em 9:41 pm

    Conhece o livro Morte e vida das grandes cidades, de Jane Jacobs? Fala exatamente isso, sobre a insegurança das ruas. Ela até cita que seguras são as ruas que tem os olhos da rua… Muito bom! Vale a leitura!

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