Responsabilidades. A minha, a sua, a dos outros.

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O nome original deste post era Consumo é diferente de Consumismo. Eu o iniciava dando as definições de uma e outra palavra e depois falava sobre o fato de que não podemos e não devemos tornar empresas vilãs, afinal elas também tem função na sociedade criando e vendendo bens e serviços que atendem desejos e necessidades e empregam pessoas que podem assim realizar sonhos e satisfazer suas necessidades.

Se é preciso existir regulamentação sobre a propaganda isso não muda o fato de que a decisão de comprar algo é individual. Se é interessante, em certo sentido, limitar o acesso de crianças à propaganda, é preciso lembrar que a peça fundamental de sua educação virá daquilo que seus pais lhe ensinarem, daquilo que eles lhe derem como exemplo.

Venho de uma família pouco consumista, até porque nunca fomos ricos. Meus pais começaram a trabalhar cedo, assim como meus tios, e eu e meus primos fomos criados com o litro de refrigerante para o jantar do sábado ou o almoço de domingo, a pizza feita em casa, a roupa passando do mais velho para o mais novo.

Aprendi que muito pode ser consertado e que muito pode ser reaproveitado. E que devemos avaliar duas ou três vezes antes de realmente comprar algo – Quero mesmo? Preciso mesmo? Posso me permitir a?

É claro que comprei coisas não necessárias – escrevo este texto em um iPad desnecessário -, mas aprendi a valorizar o que ganhava ou comprava já que foi preciso trabalho ou sacrifício para que assim fosse.

E é isso que eu tento ensinar para minha filha: sim, podemos sonhar, não há nada de errado em querer, mas não devemos atribuir mais importância as coisas que às realizações e que, algumas vezes, não poderemos ter algo que queremos e isso faz parte da vida.

Antes de alterar minha vida há um ano eu tinha dinheiro para comprar uma sapatilha por mês, me encantar com as bolsas da Uncle K quando recebia os folhetos e comprar a que eu mais gostasse em uma data especial, comprar um ou outro vestido pelo qual babasse.

Ao escolher ficar mais em casa, em ter outro ritmo de vida, deixei esses pequenos luxos de lado em nome de outros. Sim, vez em quando bate uma tristeza por querer algo que agora não cabe mais no meu orçamento, mas é uma tristeza pequena e rápida, que não muda a satisfação com as escolhas feitas.

Em mesma medida não acho errado alguém que trabalhe muito para ter carro do ano, relógio de marca ou viagem ao exterior todo ano. A pessoa se sacrifica para poder ter essas coisas e deve poder aproveitá-las.

A questão toda é a tal escolha: fazemos escolhas diárias e devemos assumir nossa parte de responsabilidade por elas. Eu não posso me ressentir da moça que passeia pelo shopping carregada de sacolas ou que pode conhecer aquele lugar de sonho em uma viagem, ela não pode se ressentir pelo fato de que eu não pego trânsito diário, tenho mais tempo com minha cã e minha filha e posso até passar uma tarde fria e chuvosa sentada no sofá escrevendo esse texto.

Eu ainda não havia terminado esse texto quando publiquei aquele sobre meus cabelos brancos e uma amiga foi feliz demais em um comentário lembrando que algumas vezes é difícil assumir responsabilidade pelo nosso próprio corpo – ficar aqui com meus cabelos brancos mesmo quando olham torto, por exemplo, e continuar olhando no olho.

Aí hoje eu estava lendo um texto do Fabio Porchat, do grupo Porta dos Fundos, por conta de uma pessoa que pediu que determinado vídeo deles fosse tirado do ar e lá estava a palavra de novo: responsabilidade.

E acabou que eu pensei que a questão não é somente sobre as pessoas que acham que a propaganda é responsável pela quantidade de pessoas acima do peso ou que sujam as ruas ou super endividadas, nem são as pessoas que não fazem isso ou aquilo com seu corpo porque tem medo do que alguém vai falar ou do que vão deixar de ter por conta disso – aprovação, inclusão ou algo do tipo – ou quem acha que o problema é algo de que não gosta simplesmente existir.

O problema é que tem cada vez menos gente batendo no peito pra dizer que escolheu que fosse assim, que decidiu que ia fazer isso ou aquilo, que educa seu filho do jeito Y porque quis e não porque a mídia o obrigou a ceder, que gosta de um fast food ou que não vive sem um refrigerante, que assume a responsabilidade por suas escolhas e que deixa que os outros assumam pelas suas, sem julgar, porque cada um só pode ser cobrado pelo que escolheu e o preço não é passado adiante.

Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

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