Tudo por uma vitória nem sempre vale tanto

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Na última semana o Discovery Channel exibiu por aqui a entrevista que Lance Armstrong concedeu para Oprah Winfrey para falar de todo o escândalo que envolveu sua condenação pela USADA (agência americana anti-doping) por conta do uso de substâncias proibidas e transfusões de sangue para ganhar competições.

Muitos esperavam que nesta entrevista, a primeira em que ele assumiu sua culpa publicamente depois de anos de negação, ele denunciasse outros envolvidos no que parece ser o maior esquema de enganação em um esporte de que se teve notícia.

Para essas pessoas a entrevista foi decepcionante – apesar de Armstrong admitir que ele fez o que parecia que todo mundo fazia, chegando a comparar o uso de EPO a encher o pneu com  ar ou sua garrafinha de água – já que ele insistiu em falar apenas de seu envolvimento.

Enquanto a entrevista era exibida outros falaram de sua aparente falsidade ou do fato de que ele parecia mais preocupado em ter sido pego do que com o fato de ter errado.

Toda a história, na verdade, parece especialmente dolorosa para os fãs do ciclismo que praticamente colocaram Lance em um pedestal após ele ter ganho sete títulos do Tour de France.

Eu não me tornei fã do Armstrong ciclista, mas do homem que venceu um câncer após bastante luta e contra prognósticos e que depois disso criou uma organização para ajudar na luta de outras pessoas. Antes disso eu confesso que pouco prestava atenção as notícias envolvendo seu nome.

Talvez por isso eu tenha recebido a entrevista de outra forma e não me surpreendi tanto com o fato de que os únicos três momentos em que ele pareceu realmente emocionado tenham sido quando ele falou de seu afastamento da organização, a fim de não prejudicá-la, quando Oprah leu a carta de uma mulher cujo filho teve de lutar contra o câncer e que se disse devedora pelo exemplo que ele deu ao menino e quando ele falou de seus filhos.

Acredito que ele não tenha se ressentido mais pelo resultado de sua condenação, que o afastou de forma definitiva de qualquer competição pelo resto de sua vida, do que pelo fato de ter sido pego, tanto que ele repetida vezes disse que não entendia porque sua condenação havia sido tão diferente de tantos outros esportistas também pegos em situação semelhante.

Armstrong admitiu ser narcisista e, em uma visão bastante deturpada, eu sei, disse que o que ele queria, acima de tudo, era vencer. Ele com certeza exibe traços de personalidade que não agradam a maior parte das pessoas – um tipo de obstinação e egoísmo não tão raros assim em pessoas que conseguiram muito sucesso em suas carreiras e nem sempre muito saudável.

No final das contas eu imagino que ele com certeza no coloca sua cabeça sobre o travesseiro de forma tão sossegada quanto tentou demonstrar na malfadada foto que divulgou nas redes sociais – em que ele aparece deitado no sofá embaixo das camisetas que usou em suas conquistas – e com certeza aquele foi um ato de menino mimado infeliz com que fizeram com ele.

Mas acredito piamente que as pessoas podem se tornar melhores, podem mudar. Então prefiro acreditar que ele possa ser melhor hoje que foi ontem.

E que ele entenda que, para algumas pessoas como eu, o seu terceiro lugar no Tour de France quando ele retornou após vencer o câncer e em que ele afirma não ter usado drogas tenha mais valor do que sete vitórias conquistadas da forma errada.

Acho eu, aqui do meu canto, que todos erram e sim, alguns erros são muito grandes, mas consertar as coisas é possível e que precisamos aprender a perdoar ou pelo menos a dar segundas chances.

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