A educação e a ciclovia

Se você acha que centenas de ciclistas saíram pedalando pelados pela cidade de São Paulo para chocar motoristas e passantes você não entendeu nada. É essa frase que eu diria aos diversos comentários que ouço por aí sobre o que aconteceu em São Paulo e em várias outras cidades do mundo neste final de semana que passou, mas eu tenho andado tão cansada das verdades absolutas que eu simplesmente passo adiante.

Então por que pedalar pelado Simone? Porque somos, pedestres e ciclistas, invisíveis. Pergunte a alguém que um dia atropelou um pedestre ou um ciclista e a resposta mais comum é que ele “veio do nada” ou “eu não o vi até que fosse tarde demais”. Faça o exercício: ao volante de um carro, quais as chances reais de um motorista não olhar simplesmente a frente em busca de obstáculos e outros carros, mas olhar nas calçadas ou nas vias próximas para ver se um pedestre se aproxima? Se um ciclista irá cruzar a rua?

Agora, se esse mesmo ciclista ou pedestre estiver pelado, você acha que ele seria ainda invisível?

A Pedalada Pelada pede por mais respeito à vida, pede, simplesmente, que os motoristas enxerguem além de suas armaduras de aço e vidro e veja, na sua frente, que existe vida.

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É mais ou menos assim: quando um ciclista morre a mídia em geral se divide em dois, alguns mostrando as dificuldades que os ciclistas enfrentam em seu dia a dia e de planos que nunca saíram do papel. Outro lado mostra as mesmas dificuldades e com elas justifica a loucura que é usar a bicicleta no dia a dia. O assunto ganha força e, é claro, desperta curiosidade, interessados e inimigos.

Uma amiga falava comigo no twitter que é importante a aprovação de leis. Mas as leis já existem: o Código Brasileiro de Trânsito determina que o maior tem de proteger o mais fraco, ou seja, não é o pedestre ou ciclista que devem se proteger, mas motoristas devem estar preocupados em protegê-los.

Se isso é utópico demais, então devemos lembrar que a lei dita que o motorista deve manter distância mínima de 1,5m do ciclista e somente ultrapassá-lo quando for seguro. O ciclista deve usar os bordos da pista, ou seja, a lateral, não a sarjeta como alguns motoristas fazem crer, e é obrigatório o uso de iluminação após o entardecer.

Ou seja: a lei existe. Mas não é respeitada. Mais que isso: é desconhecida. Ou você vai me dizer que no livrinho para a prova de teórica de direção tinha um capítulo dedicado ao respeito à faixa de pedestres ou a lei do 1,5m? Então, o que acontece, é que a maioria que se posiciona contra o uso da bicicleta primeiro esquece que ela é um veículo (mais antigo que o carro) e desconhece as leis que deveriam reger o trânsito.

E a ciclovia? A lei fala da ciclovia. E fala que na inexistência dela bicicleta e carro compartilham a pista.

Nem mesmo Copenhagen tem todas as suas ruas cobertas por ciclovias, imagine cobrir São Paulo. As ciclovias devem ser sim construídas, principalmente em vias de trânsito rápido que coloquem em risco a vida do ciclista, mas fora delas carros e bicicletas continuarão convivendo e aí o que fará a diferença é a educação.

Com a morte de Juliana voltou-se a falar de projetos de uma ciclovia na Avenida Paulista. A Avenida em teoria seria uma das melhores para ciclistas: um desenho sem acidentes, pistas largas, iluminação eficiente. Infelizmente a realidade é diferente e não são raros os acidentes. Por conta disso eu enxergo sim que ela deva receber uma ciclovia, nas laterais da pista já que o uso por entregadores da região é pesado e muitos são os ciclistas que trabalham em prédios da avenida ou em ruas perpendiculares.

Já a Doutor Arnaldo (que liga a Zona Oeste à Avenida Paulista) poderia receber uma ciclovia no canteiro central, já que boa parte dos ciclistas utilizam a via como ligação com a Paulista ou a Rebouças.

Mesmo que as duas recebam essas ciclovias, suas vias no entorno não comportam o desenho destas e passarão a ser compartilhadas em maior intensidade. Resultado: educação dos motoristas continua sendo indispensável.

Ou melhor: educação dos motoristas continua sendo insubstituível.

Assim como é insubstituível o respeito ao próximo, o fim da selvageria, o fim da loucura.

Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

2 Comentários


  1. A questão é: se a Paulista tivesse ciclovia, muitas mortes seriam evitadas.

    Cabe a nós denunciar a Prefeitura de São Paulo no Ministério Público por responsabilidade dessas mortes, já que dita ciclovia estava prevista para ser implementada em 2008.

    Veja os documentos que provam isso nos links dessa página:

    https://ciclovianapaulista.wordpress.com/

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