Livro: Aqueles Que Nos Salvaram

O Musée de l’Armée funciona em um dos prédios mais conhecidos de Paris o Hôtel des Invalides. Construído a pedido de Luís XIV para dar abrigo aos veteramos de guerra sem lar, hoje ele comporta o museu citado e outros, todos relacionados a histórias das guerras, e também a igreja aonde está o corpo de Napoleão Bonaparte e cujo domo reflete o céu da cidade em dourado.

Dos muitos lugares que conheci em Paris o Invalides foi o mais impressionante. Dentre as centenas de fotos que tenho da cidade tenho apenas uma de lá, essa que ilustra o post. Quando eu entrei no Museu eu achava que tiraria muitas outras, mas, primeiro, a iluminação das áreas destinadas a era medieval era muito fraca, a fim de conservar os itens, não permitindo boas imagens, depois, quando finalmente encontrei o conteúdo que mais me tocaria, bem, naquela hora eu não conseguia pensar em tirar fotos.

Quando você sobe a escada que leva ao segundo andar você não sabe o que esperar. Logo da entrada você vê um microfone daqueles antigos, sem nada em volta e apenas um enorme vidro atrás dele. Quando você se aproxima, letras começam a passar naquela tela e ao fundo você escuta um discurso em francês. É De Gaulle falando para a resistência francesa – que usou o Invalides como um de seus pontos de apoio – não desistir, usando a frequência da BBC de Londres.

Você então vê armas, uniformes, relatos, reproduções do que foi a Segunda Grande Guerra para os franceses, de como sua cidade foi tomada. Tudo impressiona.

No lado oposto do andar uma pequena escada, propositalmente estreita, é a saída. No final dela uma sala que mais parece um corredor. No centro vitrines mostram itens recuperados dos campos de concentração, em suas paredes fotos das pessoas que lá foram encontradas pelo exército quando da libertação.

Eu não sabia o que esperar e não tive outra reação que não fosse chorar. Não sei quanto tempo eu fiquei naquela sala, mas eu jamais esquecerei o que vi lá, ou melhor, eu jamais esquecerei o que eu senti lá. O aperto no peito, a tristeza imensa, a incompreensão. Eu olhava aquilo como se fosse o mais terrível filme de terror já feito, o problema é que não era filme.

Eu havia sentido um pouco disso, bem pouco, quando ainda adolescente meu pai deu-me O Diário de Annie Frank para ler. Depois disso eu ainda leria muitos e muitos livros sobre o tema – eu diria que hoje 1/3 da biblioteca que eu e meu marido mantemos é sobre a Segunda Guerra Mundial, várias biografias dos personagens importantes, alguns livros sobre estratégia militar (dele) e muitos sobre como as pessoas comuns passaram por aquele período (meus).

E não foram poucas as vezes em que eu pensava naquelas pessoas e, por mais estudos que eu tenha lido, não conseguia entender como a população pode ser levada a fazer o que fez. Alguns livros, como a trilogia A Bicileta Azul, me fizerem entender melhor os dois lados, talvez tenham me feito entender melhor porque algumas pessoas não ajudaram ou se esconderam.

Mas foi Aqueles Que Nos Salvaram que me deu uma dimensão melhor disso.

O livro ficou durante um ano na lista dos mais vendidos do New York Times e foi escrito por Jenna Blum, filha de um repórter judeu e uma pianista descendente de alemães, que trabalhou durante anos entrevistando sobreviventes do Holocausto para a instituição Survivors of the Shoah Visual History Foundation, criada por Steven Spielberg.

“Então eu vi uma menina que conhecia. Ah, eu não a conhecia muito bem, mas nós brincávamos juntas quando éramos pequenas. Rebecca era seu nome e, apesar de não falar com ela havia algum tempo, eu a reconheci por um gesto que ela fazia. … Mas ela veio em minha direção, devagarinho, para não ser vista. Mas ela foi vista. … Todos pararam, pois o oficial gritou “pare!” e ergueu a mão. O restante parou de atirar e o oficial olhou para Rebecca e viu o que ela estava olhando e veio caminhando em minha direção. … Eu teria virado e saído correndo, mas também estava petrificada. Não sentia minhas pernas, nem o restante do meu corpo. … O oficial colocou a arma embaixo do meu queixo, ainda lembro da sensação, de como estava fria e todo o resto estava quente. ‘- Qual é o seu nome, pequena adoradora de judeus?’ … Mas, de qualquer forma, o que ele pegou foi uma cavilha e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ele a enfiou em meu olho direito. … E claro que doeu muito. Foi a pior dor que você pode imaginar e eu joguei as mãos sobre os olhos e gritei. … Portanto, agora você sabe o que aconteceu ao meu olho. Eu nunca falei disso com ninguém… Porque ainda sinto vergonha, entende? Sempre penso que isso é uma punição adequada por todas as vezes que eu poderia ter ajudado aquela menina antes daquele dia terrível, ou ajudado outros a irem para a floresta, ou tê-los escondido no celeiro, sem que meus pais soubessem. Mas não o fiz. E me fiz de cega, entende? E a Bíblia diz… Bem, eu apenas acho apropriado.” – trechos das páginas 185 e 186 de Aqueles que Nos Salvaram

Sim, é um livro bastante triste e tem depoimentos chocantes como esse, tirados por Jenna dos testemunhos que ouviu ao longo dos anos que trabalhou na fundação. Mas ele é, acima de tudo, um livro que mexe com nossa noção de humanidade.

Nele, a história é contada a partir da vida de Trudie, filha de uma alemã que se casou com um oficial americano que conheceu durante a libertação de sua cidade. Trudie, professora de história alemã, resolve participar do projeto de uma colega que pretende entrevistar judeus sobre a Segunda Guerra. Ela quer fazer um contraponto entrevistando alemães, guiada por sua própria necessidade de respostas, já que sua mãe Anna não fala sobre seu passado, que inclui a verdade sobre seu pai: seria ele um dos oficiais alemães que perpetraram o terror?

Ele não tem um final feliz – será que a vida de verdade tem? – nem ao menos tem um final propriamente dito. Trudie encontrará algumas respostas, muitas vezes inesperadas, aprenderá muito, e continuará sua vida, carregando o que aprendeu.

Sem sombra de dúvida um dos melhor livros que li em minha vida.

Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

1 comentário


  1. Simone, coincidentemente acabei de ler esse livro hoje, fiquei encantada e muito emocionada! Lindo demais!!!

    Vou dar a dica lá no blog também num dos próximos posts. Posso linkar esse post seu?

    Bjos!

    Responder

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