Cidades e Bicicletas e o Futuro da Mobilidade: Eduardo Vasconcellos

Eu nunca tinha ouvido falar sobre Eduardo Vasconcellos até ver uma pequena nota no blog sobre livros da revista Veja, por isso mesmo eu não esperava muito de sua participação no fórum de mobilidade realizado no SESC e do qual já havia falado bastante aqui.

Pois a pequena apresentação de Eduardo, sem o uso de recursos audiovisuais, foi capaz de tocar a todos presentes no enorme auditório e valeu muitas, muitas mesmo, palmas.

Logo de saída, o sociólogo falou sobre sua experiência de 52 anos de São Paulo, período em que viu seu bairro mudar e as pessoas perderem cada vez mais espaço para o carro. Com um foco em eficiência, enormes avenidas e complexos foram construídos e esqueceu-se de pensar nas pessoas – pensou no projeto da Natália de Cidades Para Pessoas? Eu também – e que é preciso recomeçar com esse foco, reconquistar a cidade para as pessoas respeitando um mínimo de eficiência.

Em uma fala que garantiu aplausos, Eduardo falou do fato de que construir vias não é nada democrático, afinal, a maior parte da população ainda não tem veículo. Boa parte dela se espreme no transporte público, que pouco incentivo tem, que desconsidera o direito igual de todos (se cabem 70 pessoas em um ônibus, então aquele ônibus tem 70 vezes mais direito a espaço nas rua).

Pegando carona no discurso de abertura do evento, Eduardo explica que, hoje, São Paulo detém 4,5 milhões de veículos, mas que só anda porque estes não transitam ao mesmo tempo: em média temos 600.000 veículos nas ruas ao mesmo tempo, o suficiente para fazer com que atravessar a cidade seja um desafio de três, quatro horas.

E não é à toa que foi feito assim: basear o planejamento da cidade no incentivo ao uso dos carros foi uma decisão consciente, repetida por vários governantes. Um projeto de elite em que as pessoas que realmente precisam de bicicleta não tem voz, não participam da discussão com o poder político. Nenhum grupo político realmente apoia um projeto de cidade mais sustentável, usando essa bandeira de forma até irresponsável.

Foi interessante vê-lo falando sobre isso depois de ver parte da mídia por algum tempo falando que quem defende o uso da bicicleta para transporte são os “jovens burgueses em suas bicicletas importadas”. Quem sabe sejam esses jovens que hoje aparecem na mídia, que organizam movimentos, mas a questão é que esses poucos jovens que defendem o uso da bicicleta pelos mais diversos motivos – fim da carrocracia, sustentabilidade, moda etc. – são os únicos que hoje conseguem fazer barulho, enquanto quem realmente precisa está lá em sua luta diária para garantir o sustento de sua família.

Mas esses poucos eram mais de 1.000 naquele auditório. Eram mais de 1.000 acreditam que podemos mudar as coisas. Para que, no futuro, quando alguém escolher usar a bicicleta para ir e vir, isso não seja um posicionamento político, seja apenas uma escolha entre diversas opções de transporte.

Sabem, eu não escolhi cicloativista mas virei. Por que? Porque quando escolhi a bicicleta eu passei a ser olhada de forma diferente e passei a ser questionada quase todo dia sobre minha sanidade. Escolher a bicicleta hoje é escolher defender a causa, para que sua escolha seja respeitada.

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