Déficit na Educação

Como é maravilhoso ver que seu filho está apaixonado pelo processo de aprender!

No ano passado contei aqui a triste experiência que tivemos com a escola em que a Carol estava. No início do segundo semestre havíamos sido chamados a escola por conta da queda de desempenho dela, que foi classificada pela equipe pedagógica como consequente à existência de algum tipo de déficit de aprendizado. Na época, assustados coma  ideia, já que não encontravámos nenhum indicativo de problemas no comportamento de nossa filha, buscamos a ajuda da psicóloga que já a atendia.

A psicóloga muito estranhou esse “diagnóstico”, já que ela também não tinha motivos para acreditar em algum problema. Finalmente, em uma conversa com outros pais, acabamos por descobrir que muitos haviam sido chamados por conta de desempenho abaixo da média e a todos a mesma explicação foi dada. Resolvi tentar uma conversa muito franca com a escola e acabei por saber que ela havia perdido parte de seus profissionais, havia mudado a linha pedagógica, tudo ao mesmo tempo, e que não estava dando o suporte adequado aos alunos do período integral.

Carol frequentava essa escola desde o berçário e muito nos entristeceu tal quebra de confiança: ao invés de nos chamar para falar sobre o problema real, buscar alternativas para que escola e família atuassem juntos, eles escolheram o caminho de culpar a criança. Porque, o diagnóstico incorreto do défict de atenção / aprendizado, nada mais é do que culpar a criança por ser criança.

Culpar a criança por não estar interessada em uma atividade que não lhe desperta a curiosidade. Culpar a criança por ter curiosidade pelo que não é assunto de aula, mas acontece no seu entorno. Culpar a criança por precisar de ajuda na fase que é mais importante de toda a sua educação: a alfabetização.

Isso, que hoje se reflete nas notícias (aqui e aqui) de que as crianças tomam cada vez mais remédios por conta de diagnósticos rápidos e falhos, apenas demonstra que o déficit não está na criança, mas na educação. Está no educador que, esquecido da vocação que lhe fez seguir essa profissão, se preocupa mais com as estatísticas de sucesso de uma turma e o resultado no ENEM.

E, vale lembrar: é claro que os pais dão ouvidos aos pedagogos das escolas e aos médicos, já que tanto uns como outros estariam mais preparados para avaliar aquilo que às vezes não conseguimos perceber. Triste é o momento em que deixamos de ter esses profissionais como parceiros e ficamos sozinhos a procura de uma orientação mais correta.

Apesar de minha tristeza com tudo isso, esse não é um post triste: recebemos na última semana o primeiro boletim da Carol na nova escola. Sua menor nota? Um 07. O boletim veio recheado de 9,5 e muita alegria. Ela mostrava orgulhosa suas provas e trabalhos e leu conosco sua avaliação geral.

Ela hoje lê placas de ruas, embalagens de cerel, adesivos de carros. Senta conosco para ler um livro por semana e devora as letras com uma força e alegria que nos enche o coração. Tudo isso ela tinha perdido. No ano passado ela não queria ler, odiava ter de fazer lição. Hoje? Ela sabe que pode fazer lição pela manhã na escola, mas quer fazer conosco a noite para mostrar como ela sabe das coisas.

Na sala de aula ajuda aos colegas e no final do dia me conta mil histórias. Fica ansiosa porque quer logo voltar para a escola e está repleta de amigos. O mal humor matinal foi substituído por uma preguiça alegre e enquanto assiste a televisão enche mil blocos de lindos desenhos.

Em uma nova escola, em que se sente suportada e acolhida, ela se sente a vontade para dizer que, se fosse um bicho, ela seria uma Taturana, que vira linda borboleta depois.

Leia também: Déficit de Atenção ou Déficit de Coração?

Escrito por Simone Miletic

Formada em contabilidade, sempre teve paixão pela palavra escrita, como leitora e escritora. Acabou virando blogueira.

Escreve sobre suas paixões, ainda que algumas venham e vão ao sabor do tempo. As que sempre ficam: cinema, literatura, séries e animais.

7 Comentários


  1. Que lindo relato Simone. Muito bom vc dividir a sua experiência. Já tinha lido o post anterior e achei fantástico vcs procurarem a verdadeira causa dos problemas pelos quais Carol estava passando (que, em verdade, não eram dela, mas da escola). Tenho uma filha que também se chama Carolina e se alfabetizou no ano passado. Ela tem sempre um desempenho muito bom, mas morre de preguiça de fazer as tarefas de casa. Estou mudando as táticas, os horários para ver o que está acontecendo. Sei que nessa idade muitas crianças querem mais é brincar e questionam quando precisam fazer as atividades. Mas converso muito com ela sobre isso, sobre a reponsabilidade com as tarefas da escola etc. É um exercício diário. Eu, que sempre gostei de estudar, fico entre a cruz e a espada. Mas, sempre em frente, né não?

    Adoro passar por aqui, aprendo muito.
    Bjos!

    Ivana Luckesi

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    1. Oi Ivana!

      Outro dia escutei uma pedagoga que disse que a educação é o ato da repetição, da volta, da insistência. Por isso tarefa tão trabalhosa. Para quem ama não é problema, não é?

      Você deu um exemplo disse ao contar sobre sua busca. Fico feliz que tenha querido dividir isso comigo.

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  2. Isso era exatamente o que queria ouvir sobre a educação.Está acontecendo exatamente o mesmo com minha filha no colégio.Ela estava muito feliz no colégio o ano passado e neste ano está muito desinteressada pelos estudos.Quase todos os dias sou chamada no colégio pela professora dizendo que minha filha está com algum problema: Vontade de vomitar, dor de cabeça, dor de barriga, dor de dente,( vale ressaltar que sou técnica em saúde bucal e os dentes dela está em perfeita saúde).Levei ela ao médico e ele disse que ela está normal.O médico acredita que o problema seja no colégio, ele vai fazer um relatório para mudança de sala ou de colégio.Porém vou investigar isso mais a fundo, indo vê-la no intervalo sem que ela me perceba e nos horários impróprios, além de conversar com a professora dela.Ainda não fiz isso porque estou me recuperando de um exame de saúde que requer repouso absoluto.A minha filha tem 07 anos e é muito inteligente, mas acho que algo está acontecendo no colégio.No que se refere a leitura, ela evita ao máximo, dizendo que está cansada, tem vergonha de ler, etc….

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    1. Vilma, às vezes nem é problema da escola como um todo, mas algo que não está funcionando para ela. Eu acho que vale sim sua investigação e envolvê-la na troca da escola.

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  3. Simone, que coisa. Quando Roberto me falou, não imaginei esta riqueza de detalhes, claro, homens não se apegam em detalhes. Mas, acho que vocês fizeram muito bem. Para quem conhece a Carol, déficit de atenção, realmente vale uma investigação séria. Carol sempre foi super esperta, inteligente, brincalhona, responsável e muitas outras qualidades que as amiguinhas que conhecem e brincam sabem bem. Quanto a escola também fiquei muito triste quando tivemos que fazer o mesmo, mas a quebra de confiança no nosso caso também foi o fator decisivo. O importante é que hoje ambas estão felizes, aprendendo e se desenvolvendo sem medo de ser criança!!! Bjs

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  4. Oi Simone… Que lindo!! Fico muito feliz por ter participado desse momento de resgate da Carol pelos estudos.. Agradeço por essa menininha ter entrado na minha vida para me mostrar e ensinar tantas coisas.. Acho que foi paixão de primeiro contato!! Rsrsrs… Sou sua fã!! Beijossss…

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    1. Carla,

      Obrigada por todo carinho, mesmo! Nós duas nos conectamos a primeira vista, não foi mesmo? Fiquei feliz já naquela primeira reunião pois sabia que você cuidaria bem de minha pequena. Que ainda possamos compartilhar muitas conquistas das nossas pequenas. Beijos

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